setembro 03, 2004
Monchique
Portugal, Monchique-Algarve, centro da cidade, Agosto de 2004
.............Apesar de tudo, da paisagem seca e exausta, dos desgraçados dos eucaliptos que nem sequer pediram para ali serem postos, das curvas e da vontade de voltar para trás para uma das praias de Aljezur, Monchique merece ser visitada. Na encosta oriental da Serra, uma cidade rodeada de socalcos e pelo verde luxuriante da vegetação. Não uma cidade miserável, mas uma cidade que ainda esbanja dignidade, com um centro urbano feito há décadas atrás por gente de elevado nível.
As imediações poderiam estar piores (como seria de esperar, nem ali se resistiu à tentaçao fácil do "business" imobiliário ao substituir a vida do casco histórico pelos isolados e incaracterísticos blocos de apartamentos T2), mas o que realmente interessa é passearmo-nos pelo centro, pelos cafés, restaurantes e admirar o desenho das ruas e das soluções encontradas nos séculos XIX e XX por especialistas que não cursaram ne Arquitectura nem Engenharia.
Há detalhes tão sofisticados que se chega a ficar triste quando nos lembramos das urbes de hoje. A mesma tristeza que se deve ter quando se percorrem as pirâmides do Egipto ou da América Central/Sul. Perguntamo-nos o que é que se perdeu na passagem das gerações, como foi possível regredir tanto o nível de exigência. Em suma, a sensação triste de desconfiarmos que somos, em matéria de urbanismo pelo menos, uns indigentes em face dos antepassados. Cora-se de vergonha!....Quando se tem vergonha.
A praça acima é um exemplo de que se acordou relativamente a tempo. Há quem não goste do colorido excessivo das tintas, mas o que é incontornável é que se denota o interesse e cuidado da autarquia em recuperar as ambiências perdidas. O caminho está encontrado. Menos mal. Pode-se já não conseguir fazer igual, mas pelo menos não se escavacou estupidamente.
Para quem tiver ainda fôlego, também se aconselha uma visita às ruínas de um convento, (convento de S. Francisco e do sec. XVII, se o informador não nos tiver enganado), propriedade da autarquia que nele pretende ver instalada uma pousada. O que só deverá acontecer daqui a uns anos atendendo ao péssimo estado em que aquilo se encontra. De qualquer das formas o que interessa é a ambiência. A foto segue abaixo.
Portugal, Monchique-Algarve, convento, Agosto de 2004
Depois é arranjar forças para voltar a Aljezur. Saídos pelo lado Sul (direcção Portimão), os visitante são ainda submetidos à prova de conduzir de olhos fechados por forma a que não vejam a pedreira de granito (foto abaixo).
Portugal, Monchique-Algarve, Pedreira e Portimão ao fundo, Agosto de 2004
Evidentemente, a foto acima só pode ser um excelente cartão de visita preparado para receber o exigente turismo de qualidade que se rebola ao sol nas praias de Portimão. Sobrevivendo-se a esta visão da pedreira, o caminho seguir rapidamente em estado de coma até Aljezur. (Aconselha-se olhos fechados para não ver as serras. comprimidos para os enjoos provocados pelas curvas não são má ideia). A reanimação dos sobrevivente em regra é possivel com 2 mergulhos no mar da praia da Amoreira/Aljezur!
PS - Como é evidente há outros locais de interesse em Monchique. Uma visita à Foia ( ponto mais alto do Algarve, 900 metros) e às termas, as quais por si só mereciam uma entrada, são dois desses pontos.
PS2 - Realço o facto de ter adicionado hoje uma série de novos links nas secções "Vistas para a Vizinhança" e "Vistas para a Comunidade" São blogues diferenciados, que gosto de seguir e que, por uma razão ou por outra, valem a pena. Visitem e beneficiem!
Publicado por jgomes às 11:52 PM | Comentários (0)
setembro 01, 2004
Estrada Aljezur-Monchique: A sucessão das tragédias

Portugal, Estrada Aljezur-Monhique, Agosto de 2004
A Costa Vicentina tem a vantagem, muito pouco percebida por quem a promove, de estar a menos de 30 km da Serra de Monchique, um infeliz-ex-paraíso-verde na secura desta zona da costa alentejana/vicentina.
No passado, antes dos incêndios catástrofe de 2003, valia a pena ser surpreendido pela estrada de montanha que liga Aljezur a Monchique. Já se percebia que aquelas serras estavam demasiado eucaliptadas, mas a velocidade, o calor e o verde convidavam a não nos preocuparmos demasiado.
Voltar a percorrer esta estrada em 2004 é, conforme atesta a fotografia, percorrer com os olhos uma tragédia sobre outra tragédia mais antiga,i.e, os incêndios sobre a desgraça da eucaliptização de solos xistosos, no ultimo grau da erosão, que sempre foram pobres e agora estão praticamente exaustos. O que era mata mediterrânica original, de sobreiros, carvalhos, castanheiros, medronhos, foi substituído pela monocultura do eucalipto, algo só concebível a abutres-bípedes no ultimo estágio da ganância.
Em 2003 o fogo descobriu décadas de eucaliptizaçao (entretanto renascidos e prontos para continuar a sugar solos esgotados), em 2004 jovens incendiários deram cabo do que faltava no lado sul: montados que levaram séculos a crescer humilhantemente ardidos.
A população de Monchique tem consciência de que não era num ano que se corrigiam décadas de erros gananciosos. A única alternativa viável para aquela zona será replantar a floresta original. Dia 11, pelas 14, haverá em Monchique uma concentração de cidadãos locais a exigir, entre outras coisas, o óbvio: o fim da monocultura, a busca de soluções sensatas para desenvolver sem destruir o único património que possuíam, a replantaçao de sobreiros e castanheiros entre outras espécies.
Nem tudo está perdido, mas desconfio de que não estaremos longe. Recuperar aqueles solos é, salvo melhor opinião, uma tarefa difícil e cara. Os senhores dos eucaliptos já amealharam o que queriam (investindo talvez na outra destruição em curso, urbanizando intensivamente a costa sul algarvia) e devem estar a salvo de incómodos; O Estado está na penúria e não está para breve os mais programas tipo Polis: recuperar com o dinheiro de muitos otáriospagantesdeimpostos o que a ganância desmedida de alguns destruiu e a incuria dos políticos benzeu.
A propósito disto, e através do blogue anomalias, tive conhecimento de uma entrevista do Público de ontem, da jornalista Ana Fernandes a Francisco Correia sobre o assunto da desertificação do interior. Que no fundo é o problema destas serras de Monchique/espinhaço de cão. Desertificação humana acelerada pela desgraça da gula e agora dos incêndios. Aqui fica o link. Vale a pena ler. A cópia do texto integral fica no corpo da entrada.
O site da autarquia de Monchique fica aqui.
Cidades do Interior Podem Ser o Motor da Luta Contra o Despovoamento
Por ANA FERNANDES
Terça-feira, 31 de Agosto de 2004
Acredita na economia de mercado mas sabe que é um processo com falhas, que se traduziram num abandono crescente das regiões mais desfavorecidas do país, sobretudo as mais ligadas à agricultura. Francisco Nunes Correia, que liderou uma equipa que fez o levantamento da desertificação em Portugal, explica que a evolução dos modelos sócio-económicos mudou a face do território por razões tão práticas como a falência do modelo económico que ali se vivia, assim como por motivos mais subjectivos, como a perda de auto-estima das populações rurais face a uma sociedade cada vez mais urbana.
Nunes Correia, professor do Instituto Superior Técnico, foi responsável pelo programa Polis durante o Governo PS e preparou, durante o executivo de Cavaco Silva, o Plano Nacional de Política do Ambiente, um dos documentos mais programáticos já feitos para esta área mas que acabou por não sair da gaveta. É actualmente presidente do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
PÚBLICO - O que explica a desertificação em Portugal?
Nunes Correia - Em Portugal prevalecem processos de abandono das regiões por parte das populações por razões que têm a ver com a evolução dos modelos sócio-económicos. É um problema de ordenamento do território em primeiro lugar.
P. - Num inquérito feito no âmbito do vosso relatório sobre a desertificação, os agentes locais apontam os constrangimentos à expansão urbana como uma das principais explicações para o despovoamento do interior. Concorda?
R. - Essa ideia surge com algum radicalismo, mas tem de ser ouvida com atenção porque muitas vezes as pessoas que querem, por exemplo, fazer uma pequena construção para apoiar a sua actividade, são contrariadas por legislações de protecção dos recursos que, por vezes, são aplicadas de forma cega, sem atender às realidades sócio-económicas. Isso deve ser alterado. Mas, muitas vezes, por trás deste ressentimento existem interesses especulativos, que são de contrariar.
P. - Como é que a revisão de certas medidas de protecção, como as reservas agrícolas e ecológicas nacionais, deve ser feita?
R. - Existe unanimidade em relação à necessidade de revisão desses instrumentos, só que não se deve abandonar o essencial dos valores que se pretende proteger. O que é importante é rever a forma cega e mecânica como são aplicados. A desertificação não se combate contrariando os valores naturais ou degradando-os. Tem de se preservar a base de recursos: o solo, a água e um recurso de que se fala pouco mas que é extraordinariamente importante, que é a paisagem, associada à identidade própria de cada região. A identidade é um dos activos principais para promover o desenvolvimento. Portanto, a preservação dos solos, da água, da paisagem, dos centros históricos, do património cultural e natural são apoios essenciais para desencadear desenvolvimento. Mas há que conciliar o respeito por esses valores com tecidos económicos que assegurem prosperidade.
P. - Como é que isso se faz?
R. - O desenvolvimento das regiões do interior não pode ser visto de uma forma passadista, querendo fazer regressar os agricultores para trás do arado. É preciso caminhar para a frente, desenvolvendo a multifuncionalidade dessas zonas, reforçando, por exemplo, a natureza fortemente florestal do país.
P. - Costuma dizer que um país hoje é uma rede de cidades. Que papel têm os meios urbanos no combate à desertificação?
R. - É muito importante a relação das cidades de média dimensão com os seus "interlands". Hoje, só se pode contrariar a desertificação através do fortalecimento das cidades de média dimensão nas regiões afectadas. É usando as cidades como alavancas de desenvolvimento que se consegue chegar às populações mais remotas. Tem de haver uma relação estreita entre os núcleos urbanos e as zonas remotas, uma relação nos dois sentidos, com actividades económicas que relacionem o campo com a cidade.
P. - É o fim do ideal romântico de aldeia?
R. - As pessoas hoje aceitam mal viver em habitats muito isolados. São atraídas pela vida urbana. A nossa sociedade é urbana. O que é preciso é que as populações desruralizadas, em vez de irem para o litoral se fixem nas cidades de média dimensão. É preciso fazer uma grande aposta no desenvolvimento harmonioso dessas cidades, levando para lá uma modernidade respeitadora da sua identidade. Isso passa por questões tão diversas como o respeito pelo património mas também por uma atitude pro-activa relativamente, por exemplo, ao saneamento básico. Essas cidades têm que ser preparadas para o crescimento urbano.
P. - Que actividades económicas poderiam ser atraídas para essas cidades?
R. - Já há muitas actividades que podem desenvolver-se nas zonas mais remotas, como as turísticas. É importante reequilibrar o perfil turístico do país. Isto é, não ser só os chamados três esses - "sun, sand e sea" [sol, areia e mar] - mas também apostar no turismo cultural, rural e ecológico e todas as actividades relacionadas. Além disso, há as actividades ligadas à fileira florestal. Com o enorme desenvolvimento das acessibilidades nos últimos anos, que desencravaram territórios extremamente isolados, as cidades do interior ganharam protagonismo, uma capacidade de atrair investimento que no passado não tinham. Hoje há indústrias e actividades económicas que se fixam nestas regiões do país. Actividades que devem ser pouco exigentes em termos de recursos, como o solo e a água. Isto tem de ser feito com políticas pro-activas de investimento.
P. - Portanto, terá de haver uma forte intervenção do Estado?
R. - No relatório dizemos que a desertificação é uma falha de mercado. De acordo com a teoria Keynesiana, as falhas de mercado não podem deixar de ser contrariadas pelo investimento público, portanto, em nome da coesão, os portugueses têm de aceitar que nessas regiões o investimento per capita seja maior. É preciso uma intervenção dos poderes públicos, por um lado, na infra-estruturação dessas regiões e, por outro, num modelo de desenvolvimento e nos recursos humanos. Não se promove desenvolvimento sem agentes económicos, sem protagonistas. Nem todos têm de ser locais. Alguns podem ser atraídos, mas tem de haver uma malha local que acompanhe e corresponda.
P. - O futuro já não passa pela agricultura?
R. - Com ou sem desertificação, a agricultura segue o rumo ditado por muitos factores externos ao país. É preciso olhar para o que está a acontecer na agricultura e encontrar benefícios para estas zonas do interior, que tradicionalmente tinham vocação agrícola. Isso pode ser feito de muitas maneiras, como a conversão da actividade agrícola em florestal. E incentivar a ligação da agricultura a outros sectores, como o turismo de habitação. Por outro lado, a actividade agrícola continuará sempre: o número de agricultores caiu a pique mas a produção não. Esta tendência vai-se acentuar. A grande consequência que tem, entre outras, é de natureza sociológica. Há muita população em processo de desruralização. Essa população é atraída pelas cidades e é preferível que fique nas de pequena e média dimensão e que aí crie riqueza de uma forma ainda próxima da memória agrícola dessas populações, do que ir habitar bairros dormitórios das grandes cidades
Publicado por jgomes às 03:51 PM | Comentários (0)