outubro 06, 2004
"Surrender to Lusitanea and the crazy people - spot IV e último
Portugal, Crazy Lusitanea, armazém dedicado à decoração em plena reserva agrícola com a compreensão da autarquia (Batalha?/Leiria?) à beirinha da Estrada Nacional 1 na localidade de Vale Gracioso......
....Quarto e ultimo spot de uma série de colaborações que, comprovando o potencial da sociedade civil, disponibilizo gratuitamente ao Ministro do Turismo Telmo Correia, e a todas as demais entidades que dela quiserem beneficiar. Administraçao directa, indirecta, concentrada e desconcetrada, novas agencias de governação, e municípios de toda a faixa litoral e regiões de turismo.
Quatro spots feitos a pensar no mercado global e sob um lema bem reflectido, bem trabalhado e a custo zero para não agravar o défice nem pesar na novissima central de comunicação e imagem do governo: Surrender to Lusitanea and the crazy people!!!
Esta campanha dispõem-se, como facilmente se depreende das imagens publicadas, a dar uma ajudinha nesse grande desígnio nacional de nos transformarmos no 10º destino turístico do mundo, puxando sempre a brasa à sardinha de um mais que mercido papel central para a zona de Batalha/Leiria/MarinhaGrande/Portode Mós.
Abaixo, e sem mais delongas, 4 fotos de eleição. tudo preciosidades da falta de ordenamento, dos pseudo planos directores municipais que se limitam a legalizar a ganância de dezenas de proprietários e "empresários" armados em urbanizadores, a institucionalizar a miopia de autarcas mediocres e sem visão, a desbaratar criminosamente um dos poucos activos que temos: a paisagem.
Mas antes das imagens, aproveito para deixar um excerto de um texto em inglês, publicado no final de Agosto pelo blogue o Projecto. Tá lá, preto no branco o que lá fora se diz do nosso pais e em particular da faixa litoral. Tão bem resumido que acho mesmo que não é preciso desdobrar-me a arranjar texto de acompanhamento para quarto spot!!! É transcrever, passar ás rotativas e distribuir como pães quentes!!!
«Economic migration is still a hard fact of portuguese life, with successful émigrés often marking their return by building a house on a plot of land (the so called 'maisons de reve'). Yet the corrosive effects of this dislocation are evident. Portugal's rural interior remains chronically poor and depopulated, with 80 per cent of the country's population occupying a narrow coastal strip between Lisbon in the south and Viana do Castelo in the north. Somewhat alarmingly, this swathe of more or less continuous suburbia has become one of the most densely inhabited parts of Europe, but the rapidity, vapidity and intensity of such development is clearly not sustainable.
[...]
Portugal's urban landscape is not an inspiring sight, with many fine historic town centers in a dilapidated state, surrounded by chaotic peripheries interspersed with unimaginative new development.»
in Architectural Review, Julho 2004
Que severos........Vamos antes às fotos:
Portugal, Crazy Lusitanea, urbanização à beirinha de um cruzamento da ex estrada nacional 356, com a compreensão da autarquia da Batalha...
Portugal, Crazy Lusitanea, pormenor de como é belo o campo.... à beirinha da ex estrada nacional 356, a desorganização com a compreensao da autarquia da Batalha. O canto inferior esquerdo pertence à reserva ecologica, mas o proprietário ja mandou fazer um aterro para depois comerciar em mais meia duzia de casas geminadas.....
Portugal, Crazy Lusitanea, casa que serve de ilustraçao à habitaçao de sonho de qualquer familia modesta de Leiria, 400 metros quadrados cobertos para um(provavel) unico filho, feito no pinhal herdado dos avôs. Se nas matas atrás houver fogo e a maison estiver em risco não faz mal que o orçamento geral do Estado indemniza.
Publicado por jgomes às 08:54 PM | Comentários (1)
setembro 27, 2004
Surrender to Lusitania and the crazy people
Portugal, Leiria, Agosto de 2004
Em Agosto estive de férias em Leiria/Batalha e já tinha resolvido voltar a escrever sobre a sua paisagem, a total ausência de planeamento e o sentido de humor negro dos responsáveis pela promoção turística desta Região.
Hoje de manhã, 27 de Setembro, vinha no carro e ouvi na radio comercial o ministro do Turismo, Telmo Correia, a falar da contribuição cada vez mais importante do Turismo no PIB Português e da sua (nossa) ambição em transformar Portugal no 10º destino turístico do Mundo.(!!!!!).
Fiquei confuso e, consciente de que para quem está em inicio de semana (sobretudo!) a contradição das mensagens face aos factos pode traduzir-se num sofrimento penoso, tentei distrair-me e pensar em coisas mais certas e menos discutíveis..... Em vão. ....passei o dia a alternar, ao ritmo frenético da fracção de segundo, imagens reais de Leiria e arredores, Bandeirolas colocadas durante o Euro com o slogan "Surrender to Lusitânia" e a voz off de Telmo Correia a explicar como é que Portugal pode e deve ambicionar estar entre os 10 destinos turísticos mais procurados do mundo...."Caramba, que tortura! logo hoje com um sol destes....amanha deveria sintonizar a radio cidade....."
Mas seguindo uma táctica básica de exorcismo psíquico (!!!), que é escrever sobre o que nos aflige na expectativa de que amanha já não nos lembremos, aqui vão algumas linhas de reflexão sobre a origem desta tortura. :
1) Leiria. A foto acima é a foto das vistas que Leiria oferece a quem a ela chega pela Nacional1/ A8. Não é preciso descrever o que se vê. há uns tempos já escrevemos sobre o pseudo planeamento que a fez e faz expandir todos os dias em todos os pontos cardeais. Esta imagem é da zona sul e Oeste da cidade: Um eterno estaleiro em terrenos do vale do Lena e que se houvesse o mínimo de visão ainda estariam na RAN/REN de onde foram desafectados.
2) "Surrender to Lusitânia "....é o slogan ainda espalhado pela cidade, com origem numa entidade que ainda não sei bem qual é, mas que pelo que me apercebo se ocupa da promoção de outras cidades integradas nesta hipotética e virtual região centro. Para lá do facto de continuar a não se perceber que região centro é esta, e até que ponto esta entidade se coordenou com as regiões de turismo ainda existentes como a de Leiria-Fátima...para lá do facto de esta apropriação da designação Lusitânia ser um bocado abusiva (a Lusitânia romana tinha limites muito para além da dita "região" centro e ao que sei integrava território hoje espanhol, ao ponto de a sua capital ser em Mérida....), o que choca é o contraste entre a ambição do slogan e a realidade..... Desculpem, mas alguém no seu juízo perfeito se rende à foto acima??? E acham que os suíços que vieram ver os jogos do Euro ficaram rendidos? E acham que algum deles vai voltar? (Aliás, a este propósito, nada melhor que medir o impacto do Euro e desta campanha de promoção: quantos suíços já voltaram? E quantas noites ficaram?)
A minha opinião, é de que quem vem, não vem preparado para a extrema desorganização do território e da paisagem. Pior, não vem preparado psicologicamente para ver uma paisagem que se percebe que foi bonita até há poucos anos atrás mas que já não o é por ignorâncias recentes. Quem vem, vem para ver o mosteiro da Batalha, Alcobaça, Nazaré e se tiver tempo o Castelo de Leiria. e ponto. É perto de Lisboa e faz-se num dia sem ter de ficar no meio de um desastre. Os que cá ficam foram enganados pelos pacotes turísticos, sao residuais e serão sempre residuais se não se inverter a anarquia instalada. Esta é a minha opinião e é por isso que acho os sonhos de Telmo Correia são um devaneio....
3) Décimo destino turístico? Só de cabeça, surgem-me 20 países infinitamente melhor posicionados.... Claro que esta coisa dos rankings internacionais é mais psicológico que matemático e tem sobretudo a ver com o que se conta, como se conta e para quem se conta..... como sabemos, há sempre um indicador estatístico internacional capaz de agradar a um governante.
O ministro é bem intencionado, mas por razões várias é apenas um director-chefe de campanhas promocionais. Como ele bem sabe e diz, o Turismo é cada vez mais um turismo de interesses específicos (cultural, paisagístico, natureza, de cidade, de aventura, etc) e um país que quer ser um destino credível, só o é se isso for a sua visão e as estratégias gerais do seu governo (planeamento, ambiente, cultura, educação, vias de comunicação, etc) estiverem alinhadas com a visão... Ora, independentemente de se concordar ou não com a visão (pessoalmente, custa-me pensar num pais excessivamente dependente de Turismo em que directa e indirectamente andamos todos a servir à mesa), o facto é que as restantes estratégias continuam desalinhadas....Como no caso de Leiria, e em praticamente todo o resto do país!
.......E é por isso, que a existência de um ministro de Turismo é supérflua. porque a visão geral está a cargo do primeiro ministro (aliás, numa situação normal deveria estar! o que não é o caso actual uma vez que Santana Lopes é 1º ministro por razoes alheias às qualidades da sua visão ou ao seu empenho. Está ali como poderia estar na quinta das celebridades se nas quermesses que frequenta lhe tivesse saído isso na rifa), e as estratégias gerais estão a cargos dos outros ministros que neste momento se estão a marimbar para o Turismo....
Para um estrangeiro médio, tipo suíço, o comentário provável deve ser: ".....Surrender to Lusitânia....que tugas mais malucos!!!........." Ou se preferirem contratar uma mais eficaz agência de comunicação especializada no mercado global: "Surrender to Lusitânia and the crazy people!!"
Portugal, Leiria, Agosto de 2004
Publicado por jgomes às 01:34 PM | Comentários (0)
março 16, 2004
Estadio de Leiria - o problema das coisas feias

Leiria, já aqui foi dito uma vez, é uma cidade que cresce sem regra e sem estratégia. Tudo é passível de receber mais um empreendimento de dinâmicos promotores imobiliários e o visitante que se aproxime tem de o fazer de olhos bem abertos não vá ficar empanado no meio de algum estaleiro.
Leiria está feia. E isso verifica-se facilmente à vista desarmada. Já foi bonita. Agora tem apenas algumas coisas bonitas. O que não é a mesma coisa, por muito que isto custe a ouvir à Dra. Isabel Damasceno e aos seus sonhos sobre o elevado potencial turístico da cidade e da região.
A foto acima foi tirada a partir desse expoente máximo da fealdade que é a Estrada Nacional 1. Viajar naquela estrada é hoje um exercício utilizado e recomendado por psicólogos de todo o país em programas avançados de dessensibilização ao horror e às fobias.
A aproximação a Leira pela Nacional 1 - seja por Sul ou por Norte - é o ultimo grau de grande parte desses programas de dessensibilização: Quem sobreviver sem pestanejar ultrapassou qualquer fobia ao horror e está preparado para os horrores dos fornos de Treblinka ou para integrar o corpo de Gurkas do exército Britânico.
O Estádio de Leiria, readaptado para receber 3 jogos do EURO 2004 (sublinho 3 jogos do Euro); alibi para uma operação imobiliária a contento, da autoria do arquitecto Tomás Taveira e fonte de rios de tinta na imprensa local a propósito de inúmeras polemicas relativas à remuneração da sua administração está aí: Uma banheira azul e vermelha, semi construída ao lado do Castelo de Leiria. À sua volta, não fosse ele sentir-se sozinho, algumas urbanizações nas melhores terras do vale do Liz, igualmente muito feias.
O Castelo que está ao lado é tão bonito como há 20, 40, 300 ou 600 anos. Apesar deste vizinho feito para receber três jogos que lhe plantaram nas traseiras. Não é que fique feio com o Estádio ao lado... Mas antes desta readaptação estava francamente melhor. O Estádio, que seria feio em qualquer lugar do mundo, ao pé dele, é que fica muito mais feio.
Esta é uma curiosa constatação, qual lei universal, que deve atormentar muitos presidentes de Câmara, Dra. Isabel Damasceno incluída. É que herdando muitas coisas bonitas dá mais nas vistas modernizar o país a reboque de empreendimentos de construção civil. E no fundo é esse o problema das coisas feias:Tudo o que é medíocre medianamente feio, se junto de uma coisa bonita, fica insuportavelmente feio.
Mas a autarquia de Leira não fica sem dormir por causa disto.
Aliás nenhuma autarquia do pais fica sem dormir pela fealdade que autoriza e promove nos seus departamentos de urbanismo. Porque sabem que nunca serão julgados politicamente pelos seus concidadãos, porque sabem que daqui a uns anos estes erros ainda se vão saldar em vantagens quando o governo da Republica aprovar um Mega Polis de centenas de milhões de Euros, devidamente alimentado com impostos de trabalhadores por conta de outrem de toda a Europa, para arrasar com tudo e devolver o "ambiente medieval bucolico-pastoril que inspirou a poesia trovadoresca nas terras do D. Dinis.....blá,blá, blá".
Ai ...até fico com arrepios da emoção ...é uma ideia tão bonita e sensível!!
Publicado por jgomes às 01:44 PM | Comentários (8)
agosto 29, 2003
Direito à paisagem em Leiria
O direito à paisagem não é apenas um capricho estético de alguns. Na realidade ele diz respeito a cada um de nós sem excepção e afecta muito mais a nossa existência do que seriamos levados a supor.
Ao sintetizar a ocupação que fizemos e fazemos do espaço, a paisagem é apenas a face visível de algo muito mais profundo e que vai desde aspectos economicistas como a lógica de desenvolvimento adoptado (sustentável ou não) até outros, menos materiais mas não menos importantes como sejam o modo de nos organizarmos e vermos enquanto sociedade.
Nada disto é inédito, já muitos outros o disseram antes ( Gonçalo Ribeiro Teles, outra vez à cabeça!), mas nunca é demais repeti-lo: A paisagem é um direito de memoria colectiva – algo de fundamental para nos compreendermos hoje e, sobretudo, nos perspectivarmos enquanto país com um projecto de futuro.
Vem isto a propósito do modelo de ordenamento que se observa em Leiria, um concelho em franco crescimento económico que é também capital de distrito e pólo aglutinador da região Marinha Grande/Batalha/Porto de Mós.
É bem possível que Leiria tenha um Plano Director Municipal, como manda a lei, devidamente organizado e planificado. Discuti-lo não está nas minhas intenções até porque, confesso, não o conheço enquanto documento. Porém os seus resultados práticos estão à vista de qualquer cidadão que por lá passe e o que se vê não pode deixar ninguém indiferente:
- Uma cidade com um urbanismo de baixa qualidade que se expande em todas os pontos cardeais, dando a ideia de que não há, entre outras coisas, uma visão de limites para a cidade;
- Um espaço rural em estado de pseudo sub-urbanização acelerada em que as aldeias se espalham pelos campos e bermas das estradas, perdendo os centros, colando-se umas às outras e onde aparentemente todos constroem o que lhes apetece.
Neste ultimo caso, um “bom” exemplo do mau ordenamento seguido em Leiria é o da antiga Estrada Nacional 365 ( Batalha-Nazaré). Uma estrada que quando foi concebida, e até há poucos anos atrás, passava exclusivamente pelo exterior das aldeias, está hoje ladeadada de modo anárquico e continuado por habitações apalaçadas, pavilhões industrias, lotes de apartamentos/bandas de casas gemenidas. Tudo alternado com alguns espaços originais de pinhal/terras de cultivo que de forma ingloria ainda resistem.
Pensarão alguns, mais desculpabilizadores, que este cenário de batalha campal é o preço do desenvolvimento. Outros de que é o fruto de alguns erros dos anos 80 que entretanto serão corrigidos. Com os primeiros não podemos, como veremos, concordar. Aos segundos convém alertar que se tratam de erros ainda frescos e em curso.
Sobre o que neste momento se está a fazer em Leiria três perguntas se colocam às autoridades municipais:
1 – Leiria tem ou não àreas industriais? Se tem, qual a razão para permitir a particulares a destruição de área de pinhais e terras de cultivo para constução descontextualizada de armazéns industriais?
2 – Leiria tem ou não àreas residenciais de estatuto médio-alto? Se tem, porque é que permitiu e permite que qualquer particular na posse de uma parcela com vista para qualquer coisa construa habitações desmedidas?
3 – Leiria tem ou não zona urbana? Se tem porque é que licencia lotes desgarrados de urbanizações à entrada de aldeias, que mais não são do que “bons golpes de vista” de pequenos proprietários transformados em promotores imobiliários?
Para os que eventualmente nos acusarem de sermos apenas criticos destrutivos e de que este é o custo do desenvolvimento, refiro três consequências que enquanto leigo não me é dificil antever e que no futuro significarão custos económicos acrescidos para toda a comunidade:
- Elevado custo na construção e manutenção de infraestruturas colectivas (saneamento, electricidade, gás);
- Necessidade de no curto-médio prazo se construirem novas estradas que assegurem o escoamento do tráfego ( a antiga estrada nacional que atrás referimos foi, como tantas outras, desclassificada para municipal e em grande parte não permite hoje velocidades superiores a 40 Km....)
- Dificuldade crescente em vender a região como produto turistico de qualidade ( Estão a imaginar um turista alemão que visite de carro o triângulo Batalha/Nazaré/Leiria a regressar ?).
Mas os impactos negativos não são meramente económicos. São mais fundos e dizem respeito àquilo que falávamos no início deste texto: a perda de uma memoria colectiva da paisagem que era fundamental preservar para perspectivarmos o futuro de forma sólida.
PS - As criticas acima são endereçadas a Leiria (somos sempre mais exigentes com aqueles de que gostamos!), mas poderiam ser transpostas quase na integra para quase todas as vilas e cidades vizinhas...Em bom rigor, podem infelizmente ser observadas em quase todas as vilas e cidades que crescem neste país.
Cumprindo a tradição junto o email da Presidente da Câmara Municipal de Leiria: presidente@cm-leiria.pt
Publicado por jgomes às 03:50 PM | Comentários (0)