« VIstas na margem Sul | Entrada | Vistas lá fora...Escócia »

maio 04, 2005

Portugal a voo de pássaro, por José Pacheco Pereira

Depois de vistas sobre as duas margens do Tejo, as vistas em voo de pássaro de José Pacheco Pereira publicadas no jornal Público. A ler e a subscrever, uma e mais uma vez. Não que haja por estas bandas alguma aversão ao desenvolvimento ou uma defesa "naif" de um regresso ao bucolismo rural de Portugal da ditadura...Smplesmente, o caminho pode e deve ser outro. Aqui fica então o excerto. O texto completo, foi-me enviado pelo P.Barros para a caixa de correio. Comentários sobre este teste podem ainda ser lidos no planner.

Para finalizar o agrado de ver estas palavras na boca de Pacheco Pereira. Depois de muitos outros, de R. Teles, de S. Tavares... só falta render o Professor Marcelo! Pode ser que nas próximas eleições autarquicas as questões do ordenamento e do urbanismo tenham mais relevância.

"Se eu sair daqui e andar sempre a direito, por montes e vales e estradas, a voo de pássaro, até ao mar, o que encontro é um retrato de Portugal bem triste e sinistro, que se agrava todos os dias, numa obra de destruição em que muitos portugueses estão activamente empenhados, perante a complacência e colaboração activa do Estado e das autarquias, em nome de um "progresso" que pouco mais significa que dinheiro, egoísmo e vistas curtas"

"A única verdadeira fábrica que está em acção é a da produção de fealdade, a do Portugal feio. "

Portugal a voo de pássaro
José Pacheco Pereira

Se eu sair daqui e andar sempre a direito, por montes e vales e estradas, a voo de pássaro, até ao mar, o que encontro é um retrato de Portugal bem triste e sinistro, que se agrava todos os dias, numa obra de destruição em que muitos portugueses estão activamente empenhados, perante a complacência e colaboração activa do Estado e das autarquias, em nome de um "progresso" que pouco mais significa que dinheiro, egoísmo e vistas curtas. Eu voo daqui, mas podia voar dali que o resultado não seria muito diferente. Infelizmente, o caminho é quase sempre igual. Voando por cima de Portugal, percebe-se a realidade dolorosa da nossa condição de país atrasado, pobre, inculto, sem margem para dúvidas.
Começo. Caminhando pelo ar, a direito, passo por uma ETAR (estação de tratamento de águas residuais) que começou a ser feita num local, depois verificou-se que havia um erro de localização e construção, e mudou-se para outro. Parece que a consistência das terras impedia a construção. Responsabilidades? Nenhumas. Depois, a mesma ETAR, que devia funcionar há muito, não está a funcionar, os esgotos correm em campo aberto perante a indiferença generalizada, com excepção dos mosquitos e moscas. Depois, terrenos que estão nos planos como sendo do domínio agrícola, povoam-se de barracões e casas de habitação e veraneio, construídas ao modelo maison, térreas com colunas e pórticos, felizmente menos horríveis do que o mesmo tipo de casas de emigrante de há uns anos. Ao lado, caem aos bocados casas, adegas, lagares, currais, que seriam na América antiguidades protegidas, com as suas cantarias de pedra, as suas portas de arco, a ocasional estátua escondida num nicho, e cem ou duzentos anos de convívio com o que está à volta, numa acomodação que não existe a não ser pelo tempo. Mas não estamos na América, somos um povo mais velho, logo podemos estragar à vontade. Aldeias. Actividade económica? Nula. Ou quase. Cafés, com a Sport TV e gente falando muito alto. Alcoolismo. Restaurantes, como se imagina. Velhos. Cada vez mais velhos. Farmácias. Único emprego para os jovens que os faz fugir da escola e alimentar a estatística do abandono escolar: construção civil. Muitos jipes, carros, motas. Anúncios de discotecas, bares, cada vez mais. Os movimentos pendulares de carros pela noite, prenunciando o tráfico de droga.
Depois ruínas, de quintas, lagares, fabriquetas, de vinhas, de zonas de cultivo de tomate, de campos de oliveiras, ruínas da agricultura portuguesa. Algumas árvores resistem, umas ardidas nalgum passado incêndio, outras atoladas na sua solidão, sem bosque. Apenas árvores que ficaram, até alguém as cortar, ou plantar eucaliptos ou incendiar de novo. A seguir, um pequeno ribeiro assoreado, cheio de lixo, mal passando por entre canaviais amarelecidos pelo pó da estrada. Depois uma enorme área de restaurante para "bodas e festas", brilhando de novo, enorme parque para estacionamento e o mesmo estilo de casa-maison, pórticos, colunas, com os reclames dos gelados encostados e máquinas onde se apanham ovos de plástico a gancho. Mais lixo, garrafas de plástico, pó.
Uma estrada perigosa, tão perigosa que tudo quanto é aglomeração exigiu um semáforo que mostra o vermelho quando se ultrapassa 50 quilómetros. Pensam que um basta, ou um de quilómetro a quilómetro? Engano. Como o meu vizinho tem um à porta e eu não tenho nenhum, também quero. Os semáforos sucedem-se uns aos outros, colados entre si, num desperdício tão habitual que já ninguém nota. Milhares de sinais, de stop em estradas sem trânsito, de sentidos proibidos em locais onde é improvável proibirem alguma coisa, milhares de sinais mas nenhuma verdadeira indicação de direcção com continuidade. Começa e depois, na próxima bifurcação, por onde viro? Não sei, a terra sumiu a auto-estrada, a localidade que havia lá atrás já não há. Deve ser de haver muitas rotundas, com monumentos no meio, ou fontes.
Vários locais de venda e exposição de automóveis usados, crescendo como cogumelos, no meio de urbanizações rápidas, com o entulho da terraplanagem deitado ao lado. Ah! Esqueci-me de vários montes de entulho de construção pelo caminho. Depois, cheira. Não cheira a campo, ao estrume, ao saudável estrume, mas ao cheiro intenso e acidulado das pecuárias, que se cola às casas, aos corpos, que obriga a fechar as janelas, não apenas incómodo, mas insuportável. Depois casas, de todas as formas, de todos os feitios, por todo o lado, completas, incompletas, antigas e novas, as novas todas iguais, com os seus relvados quase artificiais e piscinas, exigindo toda a água do mundo para apenas ficar vagamente verde. As antigas caindo, pouco a pouco, sem gente nem função, com letreiros de imobiliárias, "Vende-se".
Mais à frente, uma pedreira rasga uma série de colinas, o contraforte de uma montanha. "Rasga" é a palavra certa, crescendo para todos os lados numa mancha amarela entre o verde, deformando a cumeeira da serra, partindo-a a meio, mostrando-se como o mais saliente objecto para muitos quilómetros em redor. De repente, tudo o que é cimo do monte, que já tinha uma antena de telemóvel, começa a ter moinhos de vento modernos. Não são o que mais afronta, na sua elegância branca, mas como é que se passa do nada a tantos, de um momento para o outro? A paisagem vai ficando saturada de antenas, moinhos, postes de luz, candeeiros, fios diversos. O caos que tudo envolve é perceptível.
A ordem é o caos, porque se percebe que quem quer fazer alguma coisa faz, independentemente de outros direitos e outros valores e do futuro das terras. Quem não quer muda-se. Para onde? A única verdadeira fábrica que está em acção é a da produção de fealdade, a do Portugal feio. E não me venham com a história de que este olhar de pássaro é passadista e hostil aos "melhoramentos" ou ao "progresso económico". Todos, quase todos eram possíveis, são possíveis, sem esta destruição da qualidade de vida, da vista, da paisagem, do equilíbrio natural e mesmo do equilíbrio artificial. Quantas pedreiras neste país foram recuperadas como é suposto? Por que razão é que as suiniculturas, não cumprem a lei, não tratam os seus detritos e provocam mau cheiro? Como é que se pode permitir a contínua violação do terreno classificado como agrícola, para alargar áreas de construção, ou fazer casas onde cada um quer? Quem autoriza a proliferação de stands de automóveis junto das estradas? Quem enxameia tudo de "mobiliário urbano" e rotundas sem ter o saneamento ligado?
Há um problema de pobreza, hoje mais de remediamento, mas está longe de ser uma questão de dinheiro porque se esbanja e muito. É em parte um problema de economia porque a economia paralela, à margem dos impostos e da lei, continua a ser apreciada como escape para a outra, que não existe, ou não sobrevive nesta ecologia pantanosa. Mas acima de tudo são literacias que estão em causa, mais do que cultura ou dinheiro. É uma mínima percepção, inclusive económica, de que isto é um péssimo negócio para todos, mesmo que seja vantajoso a curto prazo para alguns.
Como em tudo, é também o poder que conta, o que tem os que destroem e o que não é usado pelos que podiam impedir as destruições. Há de facto algumas melhorias reais, há mais escolas, mais bibliotecas, mais equipamentos culturais, nalguns casos gigantes e subutilizados, mais hospitais, mais serviços a nível local e regional, melhor comércio de massas, mais acesso a determinados bens e mais dinheiro para os adquirir. É verdade. Mas é uma gota de água no caos, na fealdade, que cresce exponencialmente. Voando a voo de pássaro é impossível não ver. Historiador

Publicado por jgomes às maio 4, 2005 11:06 PM

Comentários

Não se trata de uma questão de optimismo, dai dizer que concordo com muito do que escreve Pacheco Pereira, o facto do positivismo é algo que defendo desde os tempos da universidade, se for possível mostrar como se faz, e como se faz com qualidade é possível assim utilizar modelos de referência no que se propõe e não falo em copiar, mas usar princípios, ou métodos. O problema por vezes é que as pessoas copiam e esquecem que trabalham com realidades diferentes, depois temos os resultados que se vêem.
Nos projectos onde tive a sorte de colaborar, todos dentro a área do ordenamento do território à escala municipal, foi possível verificar a existência de vontades de técnicos e de alguns políticos, mas muitas vezes depara-se ou com a inércia politica ou com a falta de ferramentas por parte dos técnicos.
Mas isto tem-me possibilitado uma mudança de visão face ao panorama que se vê e vive, pois são várias as localidades por onde tenho passado e tenho visto esforços por uma melhor qualificação do território, deixo o exemplo de Óbidos, penso que dos melhores a nível nacional, o concelho de Tarouca em particular as freguesias de Várzea da Serra, Mondim da Beira, algumas das localidades de Sever, entre outros. Alguns destes exemplos surgem de trabalhos elaborados por GTL’s ou por iniciativas do URBCOM, sei que são pequenas gotas de água num imenso caos urbanístico por onde se vai navegando um pouco à deriva. Mas se não forem divulgadas estas iniciativas que contribuem de forma positiva para uma maior qualificação do território e da qualidade de vida, quer para consciencializar técnicos e cidadãos, então não é possível criar massa crítica ao que de mal se vai fazendo.
Penso que em espaços como os Blogs, podem cada vez mais serem veículos para uma participação cívica e alertas para estes tipos de questões, por isso cabe a alguns de nós, (por vezes chamados de utópicos), continuar a divulgar o que de melhor se faz, não deixando de apontar o que está menos bem e contribuir para o seu melhoramento.
Dacostt

Publicado por: Dacostt às maio 5, 2005 11:08 AM

Se os empreiteiros reflectissem um pouco (e não é pedir muito....) se estas casas que estou a construiur fossem para os meus filhos e netos, estarei a pensar se têm um jardim onde eles possam crescer, uma horta onde eles possam cultivar os seus produtos, um infantário próximo onde eles possam crescer, um centro de saúde eficiente, rios despoluídos, saneamento básico, etc, não estaria a ser um EMPREITEIRO verdadeiramente empreendedor e não apenas ganancioso e a contribuir para o estrago?
E será necessário construir?Não haverá nada para recuperar?
http://bioterra.blogspot.com

Publicado por: bioterra às maio 5, 2005 12:41 PM

"A única verdadeira fábrica que está em acção é a da produção de fealdade, a do Portugal feio."

É agradável, ler um texto deste teor por parte do Dr. Pacheco Pereira, considerando o seu perfil mediático e alguma influência que possa ter. Depois da contundência desta frase, na verdade, esperava um pouco mais.
Quem são os directores da fábrica?
Muito (a maior parte, porventura) dessa fealdade está devidamente autorizada; planeada até; faz parte da estratégia do país (seja ela qual for).
Agora até sua Excia. o Presidente da República quer medidas; ficou chocado com o desordenamento ao que parece. Não é também ele um dos directores da fábrica? E quando esteve em Lisboa, não foi director de produção? E o que produziu? Beleza ou fealdade?
Enquanto se vai falando, a fábrica não pára. Pelo contrário, com eleições para "director de produção" à vista, tem de produzir a todo o vapor. E quanto mais feio melhor.

Publicado por: jrf às maio 6, 2005 02:25 AM

Ha varias dezenas de milhares de casas abandonadas em Portugal, tanto em cidades como em aldeias.
Algumas delas estao em condiçoes perfeitamente habitaveis, outras poderiam ser reabilitadas por uma fracçao de comprar uma casa nova.
Alguem me sabe explicar porque e que tantas casas continuam abandonadas, quando se gasta tanto em novas construcçoes?
Sera possivel dever-se apenas ao portugues inculto julgar que os outros vao dar alguma importancia ao facto de ele adquirir uma casa nova?

Publicado por: Andre às maio 24, 2005 12:24 AM