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fevereiro 15, 2005
A ruína na paisagem
A opinião, da autoria de Bernardino Guimarães, foi originamente publicada no Jornal de Noticias a 25 de Janeiro e chegou-nos ao conhecimento via Pedro Barros que nos enviou o link para a mesma. Com o título "A Ruína na Paisagem" aqui ficam então as preocupações expressas por Bernardino Guimaraes pela degradação da paisagem que, por muito que nos custe, é o traço distintivo de boa parte do nosso país:
"A ruína na paisagem
Outro dia, no decorrer de uma conversa, alguém perguntava afinal de contas, qual será o principal perigo da contínua degradação do ambiente? A mim, para lá das catástrofes globais anunciadas, porventura inevitáveis se não se mudarem rumos e grandes escolhas, ocorreu-me que talvez a uniformização de tudo, da vida, do que nos rodeia e do que somos, seja afinal o risco maior.
Sabemos que uma das marcas do nosso crescimento urbano, acelerado e disfuncional é a tendência para a uniformização da paisagem. Uma espécie de corrida para o nivelamento por baixo, para a mediocridade feita lei urbanística.
Menos diversidade, mais pobreza, já sabemos. Por(quase)toda a parte, cidade e campo, se empastela e turva o olhar defronte das grandes "conquistas" da modernidade portuguesa..
Vemos edifícios de sete andares pontificando em aglomerados rurais, prédios grandes e pequenos subindo colinas, tapando rios, invadindo praias, desafiando a lei e a gravidade. Nas cidades arrisca-se a invisibilidade do céu, edifícios tapando as vistas de outros edifícios, urbanizações "estilo internacional" ocupando o que eram zonas verdes, viadutos insolentes.
Mas o padrão, o arquétipo de tudo isto é, sem dúvida, a rotunda. Não seria possível, talvez, entender a contemporaneidade sem essa muleta urbanística omnipresente. Os autarcas amam e difundem as rotundas com volúpia, como se não houvesse amanhã. Nada se vulgarizou mais do que este elogio ao redondo, ao circular, do que esta herdeira distante da invenção da roda, quiçá com laivos esotéricos impulsionando, através da circunferência, um simbolismo novo e só de alguns conhecido.
Ninguém duvida da real influência do esférico na nossa vida pública, mas , em vez de deslizar sobre a relva, este tipo de "melhoramentos" declara guerra sem quartel ao discurso quadrado, dos que não vislumbram beleza no trânsito zombando de cruzamentos e bifurcações, encantado a rodar, qual girândola, circunvagando em torno de fontes cibernéticas já tontas de tanta mobilidade.
Longe de mim querer ser redundante, mas li recentemente que no município de S. João da Madeira se procura moderar este entusiasmo. Eliminar 11 rotundas, eis o objectivo camarário. Parece muito? Não é. Esse simpático concelho possui 110 destes círculos rodoviários, em oito quilómetros quadrados!!
Certo é que, entre rotundas (esta crónica é redonda, como os leitores já perceberam) IP's e IC's com e sem lógica, a mancha construtiva alarga-se território afora, misturando urbano e rural - mas ao contrário do que, digo eu, poderia ser, criando vastas "zonas de ninguém".
Nesses espaços inclassificáveis já não há ar puro, nem frescos regatos nem arvoredos nem sossego e ainda não há - e não haverá talvez nunca - o que a cidade pode e deve oferecer acesso a bens culturais e divertimentos, empregos e melhores oportunidades.
Mas o resultado imediato é impressivo. Tudo banal, tudo igual, a diversidade banida, as marcas identificadoras soterradas na paisagem empobrecida. O tecido social confundido e a vida económica dependente. A ecologia ensina-nos o valor perene da diversidade. A paisagem, num país tão antigo como o nosso, é toda ela humanizada, tendo estabilizado, consoante as regiões, em formas mais ou menos conseguidas de adaptação e aproveitamento das condições naturais do meio - e isto ao longo de processos seculares. As mudanças que agora se verificam são demasiado rápidas e mal pensadas, excessivamente deslumbradas com uma noção unívoca e equívoca de progresso.
A ruína da paisagem portuguesa é a maior evidência de um imenso falhanço colectivo de que deveríamos todos querer sair!
Bernardino Guimaraes, JN, 25 de Janeiro de 2005"
Publicado por jgomes às fevereiro 15, 2005 08:38 PM
Comentários
Tem razão no que diz mas eu acrescento um exemplo aqui bem perto da capital que, pela sua finalidade, se torna um «pau de dois bicos»:
A proliferação desregrada de aerogeradores na região Oeste.
Em 1988, quando fui viver na Feliteira, Torres Vedras, podia dar grandes passeios a pé e costumava visitar as ruinas dos moinhos e os restos das fortificações das Linhas de Torres.
Hoje, nos mesmos cabeços, encontro gigantescos aerogeradores. Parece-me mal salpicar a linda paisagem que temos com estes monstros. Parece-me mal que o estado financie com os nossos impostos que já tem dinheiro suficiente para pagar a outra parte. Parecer-me-ia bem que nos PDM se determinasse de forma clara, o local para a construção de tais aparelhos. parecer-me-ia bem que o estado financiasse de igual forma quem tem e que não tem capacidade de investimento. Poderiam ser, por exemplo, as autarquias a fazer tais explorações com grande proveito próprio.
Publicado por: Castor Solitário às fevereiro 25, 2005 11:31 AM
Nada sobre o rescaldo das eleições??
Vem dar um parecer no Bioterra.
Um abraço
Publicado por: joao soares às fevereiro 26, 2005 11:47 PM