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setembro 29, 2004

"Surrender to Lusitanea & the crazy people" - spot II

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Portugal, Comunidade Urbana de Leiria, Batalha, Agosto 2004

Cacém?? Ermesinde??? Odivelas?? Nada disso, é o centro da Batalha, vila histórica inebriada de "modernidade". Em plena Lusitânia, ex-Estremadura, Ex- Beira litoral, ex-semi-ainda Distrito de Leiria, ex-autoproposta área metropolitana de Leiria, actual assim-conformada-por-enquanto comunidade urbana de Leiria, lado a lado com o permanente desastre de 300 Kms intitulado Estrada Nacional 1, a Batalha é um dos pólos turísticos que certamente o ministro Telmo Correia estará a pensar quando sonha transformar Portugal no 10º destino turístico mais procurado do mundo.

Estará a pensar, e por aí terá de ficar!

Hoje, a Batalha é, para o bem e para o mal, uma terra sobre a qual a história não pesa. Há terras que não têm passado (umas agradecem, outras desesperam); há terras que o têm e vivem com isso ao ponto de dele tirarem partido. Outras que não resistem e socubem sob o seu peso. Esta, por razões diversas seguiu o caminho duvidoso de o ignorar ostensivamente. As razões sao certamente diversas, mas o resultado respira-se por quase todo o lado:

As pessoas sabem que aquele mosteiro teve e tem a sua importância. Mas em tudo o resto são pragmáticas: é uma bela configuração de calcário amarelado com o qual têm de viver. um cenário si´mpático para casamentos e outras cerimónias religiosas. E é gerido centralmente a partir de Lisboa (i.e - zona em que todos os projectos tem de ter um carimbo chatode conseguir do IPPAR). Nada mais. Só isto. Nada mais do que isto.

O futuro é em frente e o concelho é hoje um pólo animado de especulação imobiliária para todo o tipo de empreiteiro, ao ponto de o Mosteiro parecer um objecto extra-terrestre que ali veio parar por obra e graça não se sabe bem de quê ou de quem ( o que para o caso é irrelevante e não interessa nada como diria a Teresa Guilherme).

Nas esferas locais explica-se este divorcio com o facto de aquele monumento ser algo dependente da administração central: ....pois a eterna questão das receitas de bilheteira que vão para os cofres do IPPAR sem beneficiarem na justa proporção a vila; a Estrada Nacional que alguém centralmente decidiu fazer passar em frente do mosteiro, o projecto criminoso (de facto!)concretizado pela ditadura em compor a envolvência de acordo com uma monumentalidade vazia, etc, etc.

A minha opinião é de que os argumentos acima são superficiais e servem apenas para apaziguar consciências. Ninguém ali está interessado em "carregar " o que para muitos é visto como "pesos" do passado. Nem os demasiado "pesados", como os que resultam da simbologia extrema do mosteiro, património da humanidade testemunho real de uma patamar de sofisticação alcançado por ascendentes tugas nos séc. XV, mas nem outros mais leves, que mesmo assim sendo são deixados para trás como sacos de que se convém desembaraçarmos o mais depressa possível.

Um desses lastros que ninguém já suporta é a herança cultural rural dos séc. XX e XIX, cujos sinais estão hoje em pleno processo de rápida destruição. A facilidade com que a autarquia autoriza a destruição de casas típicas estremenhas, a facilidade com que permite as urbanizações imbecis de beira de estrada, a irresponsabilidade de não ter uma área industrial de facto, a ambição desmedida que qualquer pessoa imprime na construção da sua habitação, são as expressões acabadas da leviandade sem complexos.

Ali, a terra só tem uma utilidade! Entrar no business do imobiliário e das mais valias. Depressa!!!! Duvidas? Não sei.... O Ministro Telmo Correia parece que não tem:

" Welcome to Lusitânia & the crazy people!!!"

Acima, a foto é de uma vista de uma construção recente (4 anos ?), feita a menos de 50 metros da igreja matriz, manuelina e classificada. Tudo legal e como manda a lei. Embora do estilo para demolir daqui a 10 anos no máximo. Como os exemplos, do muito que por lá há prontos a fotagrafar de olhos fechados, que publicaremos na próxima entrada.

Abaixo, deixo um artigo, bem a propósito, de Guilherme D` Oliveira Martins, publicado no Domingo passado pelo jornal Público, sobre patrimonio cultural (??) na Europa. Aos mais cépticos nestas coisas do turismo, aconselha-se a leitura e uma vista de maior detalhe pela foto seguinte.

Batalha493.JPG
Portugal, Batalha, Agosto 2004

O Património Cultural Não Tem Fronteiras
Por GUILHERME D'OLIVEIRA MARTINS
Público, Domingo, 26 de Setembro de 2004

Nada pode ocorrer uma só vez,

nada é preciosamente precário..."

Jorge Luís Borges, "Aleph"

Em toda a Europa, o património cultural é celebrado como factor de convergência e diálogo - e este ano os jovens são os primeiros destinatários das Jornadas Europeias do Património. O que perdura no tempo abre caminho ao futuro - e os jovens compreendem-no melhor do que ninguém, ávidos de procurar caminhos novos e que tantas vezes reinventam os que outros trilharam.

A iniciativa do Conselho da Europa quer sensibilizar os cidadãos europeus para os valores da memória contra o esquecimento, do tempo contra o efémero e da duração contra o imediato.

Um museu, um castelo, um caminho, uma paisagem, uma escultura, uma instalação, um poema antigo, uma pequena lucerna, uma fivela, uma trompa, um tonel encontram-se com um cantar tradicional ou uma dança, um dialecto, uma festa, uma feira, uma procissão, uma superstição, uma arte, uma manufactura, um vinho, um doce, uma iguaria - e tudo isso pode levar-nos da tradição à memória e da memória à vida.

Na passagem dos 50 anos da Convenção Cultural Europeia, os cidadãos europeus estão cientes de que uma cultura centrada na pessoa humana, na democracia e nos direitos humanos afirma-se e consolida-se no respeito pelas diferenças herdadas, mas também na força das complementaridades entre várias culturas abertas.

(...) São as pedras mortas e as pedras vivas que se confrontam e associam. As pedras mortas são marcas da presença humana. As vivas representam a presença humana. T.S. Eliot dizia, aliás, que a cultura é insusceptível de planeamento, porque é a base inconsciente de tudo o que planeamos. E que é a herança que recebemos das gerações que nos antecederam, senão a convergência entre o significado dos monumentos, edifícios e obras de arte - mas também das tradições e costumes e a sua projecção na vida?

A modernidade significa uma ligação aberta entre o que recebemos, desde a arqueologia e da arquitectura, até aos costumes e tradições, passando pelas comunidades culturais e ambiente cultural, por aquilo que criamos e construímos... Património imaterial? Património vivo? Cada vez mais as identidades culturais enriquecem-se através da capacidade das pessoas e comunidades ligarem tradição e mudança, transmissão e inovação, herança e criação. Das paisagens ao meio ambiente, da preservação do património ao incentivo à arte criadora - estamos perante identidades culturais como realidades vivas, em mutação.

Eis porque os jovens e as escolas, agindo como redes de acção, compromisso e sensibilização, devem ser lugares de solidariedade activa em prol do património. Eis porque deve ser incentivada a atitude nómada da viagem, de que fala Chatwin, e da procura do outro e do diferente. A mobilidade de professores, estudantes, intelectuais e artistas, cientistas e investigadores, a criação de enclaves de paz, a promoção de parcerias envolvendo diferentes países, para a promoção de um novo conceito de fronteira enquanto lugar de cooperação, de aproximação e de enriquecimento são exemplos de acção.

Presidente do Centro Nacional de Cultura, coordenador europeu das Jornadas Europeias do Património

Publicado por jgomes às setembro 29, 2004 09:57 PM

Comentários

Como tem vindo a ser habito, esta entrada está excelente e refiro que os assuntos relatados neste blog, são de genuíno interesse para todos nos, ou pelo menos assim deveriam de ser.
Nesta entrada, as fotografias despertaram a minha atenção e levam-me a fazer a seguinte observação.
Os grupos financeiros e imobiliários devem achar que tem alguma vocação artística. Pois a segunda fotografia, a mais pormenorizada, revela nos que este bando de criminosos urbanísticos de(con)struiu e, como qualquer artista pintor que assina a sua tela, deixou o seu nome em letras bem grandes para que ninguém possa ter dúvidas sobre a autoria daquele pedaço de betão, ferro e vidro totalmente desenquadrado e com a vantagem de ser inútil.

Publicado por: lazy às setembro 30, 2004 11:13 PM