« Condensado de Vistas de Imprensa | Entrada | Alenquer ...II - vistas a evitar »

setembro 16, 2004

Ao avistar Alenquer.....

46Alenquer1.JPG
Portugal, Alenquer, Agosto de 2004

Alenquer. Até há alguns anos atrás, penso que cerca de 15-20 anos, ir a Lisboa pela Nacional 1 significava a impossibilidade de evitar Alenquer. Lembro-me da primeira vez que a vi, aquando da excursão da escola primária a Lisboa para um condensado impossível de um dia: ida e volta com museu militar, museu da marinha, planetário e mosteiro dos Jerónimos. Na altura já se podia apanhar a auto-estrada em Alcoentre/Aveiras, mas as professoras, por razões de custos ou de gosto, preferiam continuar pela Nacional 1. Uns quilómetros antes suplicavam ao microfone para que nos cansássemos do "Sr. chófer, por favor, ponha o pé no acelerador. se bater não faz mal, vamos todos pró hospital!!!!" e informavam que íamos passar por Alenquer...para "termos atenção à vila presépio, blá, blá, blá, Damião de Góis viveu aqui, blá, blá..." Assim que começávamos a descer, pediam ao motorista da camioneta da Rodoviária Nacional de Leiria para abrandar a marcha e voltavam a suplicar para pararmos com a berraria e que olhássemos. Alguns não chegavam sequer a parar de berrar, outros por sorte ou por se terem perdido na letra da música, tinham esta vista inesperadamente oferecida de bandeja pelo lado direito: ALENQUER, A VILA PRESÉPIO!

Estava registada a imagem. Definitivamente.

Hoje 20 anos depois, continuo a passar por Alenquer e a parar o carro. Há uns anos num fim de tarde de Dezembro tive curiosidade e arrisquei sentir-me dentro do presépio. Passei nas ruas velhas de desenho árabe, no seu convento do inicio da nacionalidade, nas fabricas da semi-revolução industrial possivel em Portugal, nos painéis de azulejo (alguns ainda la estão!) a anunciar as vantagens do Nitrato do Chile.

Gostava de Alenquer- Passei a ficar dependente de Alenquer.

Hoje, 20 anos depois, quando lá passo, é impossível não ser transportado para o inicio dos anos 80 e imaginar, um autocarro da Rodoviária Nacional, a transitar a 60 Km hora nas estradas rurais de um país que, sei-o hoje, ainda estava em estado de choque com a guerra, os retornados e a perda do império, de uma sociedade ainda a ferro e fogo das nacionalizações recentes e as marcas da radicalização pós 25 de Abril. Imaginar, professoras primárias, a jurar certamente entre elas que aquela era ultima vez que se metiam na aventura de levar a Lisboa malcheirosos, filhos e netos de camponeses miseráveis da Estremadura. Imaginar, fedelhos que não faziam a mínima ideia que tinham nascido no país mais atrasado da Europa e que julgavam transitar numa estrada moderna porque comparada com os caminhos de barro e mato que aos Domingos percorriam quando iam à catequese na sede da freguesia. Imaginar que a estrada moderna da altura era afinal a estrada testemunho do isolamento, do tempo perdido da Ditadura. Uma estrada que ligava o Porto a Lisboa e passava por dentro de todas as vilas que lhe ficavam no caminho, tal qual como no tempo das diligencias do séc. XIX.

Hoje, 20 anos depois, a vista a não perder continua lá e faz parte do imaginário de muitos que por lá passaram nos anos 80. Assim como faz parte de todos os que ainda por lá passam pela primeira vez. Assim como fazem parte tantas e muitas outras paisagens que se vêem pela primeira vez, esta é, no caso pessoal, apenas um bom exemplo de como a paisagem entra no processo de construção de uma identidade e com isso evoca memórias colectivas.

Hoje, quem lá passa e imagina o que atrás escrevemos, tem de fazer o esforço adicional de procurar e fixar a perspectiva certa para ver exclusivamente este enquadramento. Se desviarmos o olhar, o postal fica irremediavelmente manchado e os pensamentos generosos acerca das transformações operadas no país são imediatamente devolvidos à realidade. De facto, "...as brutais transformações operadas em 20-30 anos anos foram um grande alibi para as sacanices mais descarados.....", ....pensamos nós.

Como veremos, na próxima entrada, são crimes operados nos últimos 15 anos sob a liderança de uma câmara exclusivamente dirigida por um só homen desde as primeira eleições nos anos 70. Minhas senhores e meus senhores , Sua Excelência, Eminência, não sei, ou um grande autarca monólito do poder local português: Sr. Álvaro Joaquim Gomes Pedro!!!!

Nota: Este blogue comprometeu-se a dedicar-se exclusivamente à paisagem, mas resiste cada vez menos a outros assuntos. Aqui fica o link para o artigo de opinião (copia do texto no corpa da entrada), de José Pacheco Pereira no Público de hoje, Quinta-feira (que vale a pena ler!) e o meu comentário pessoal às suas linhas acerca do impacto da blogoesfera nos media. A análise parece-me acertada, li com interesse as ideias que expôs, mas o que eu gostava mesmo era de o ouvir falar dos impactos políticos da blogoesfera: na baixa esfera da partidocracia portuguesa e nas altas esferas da Política com P grande e da Democracia com D grande. Não que a blogoesfera não influencie significativamente os Media ,mas porque não acredito que milhares de pessoas editem das 6 da tarde ás 11 da noite apenas para desequilibrarem os media de hoje. Desconfio até, não sei porquê, de que as coisas já foram mais longe e não vão deter-se por aqui.

Eu sou dos que não acredita que o status quo mesquinho hoje vigente, nervosinho que está com tanta opinião publicada e acessível a todos, consiga sequer encaixar-se nos factos. Como é evidente há um antes e um depois da blogoesfera na Política. Há quem não o consiga ver, e há quem, por receio, prefira não o ver. Em vão. São os pontos de não retorno das aulas de historia do secundário. A blogoesfera é um desses pontos. Aconteceram muitos neste últimos 10 mil anos , se calhar não tantos como os que seria necessário, mas de vez em quando as variáveis conjugam-se e eles acontecem. Nós temos o privilégio de estar no meio de um deles e é improvável que alguém queira ficar no navio, estacionado ao largo, observando calmamente "como é bonita esta costa que olhos humanos avistam pela primeira vez.......

Media-esfera, Blogosfera e Atmosfera
Por JOSÉ PACHECO PEREIRA
Quinta-feira, 16 de Setembro de 2004

Há cerca de um ano, escrevi sobre os blogues no PÚBLICO, coincidindo com a sua descoberta por um público mais vasto. Houve, em seguida, o habitual surto de breve fama, centenas de blogues foram criados e dezenas de artigos mais ou menos apressados, mais ou menos informados, foram publicados. Tudo quanto era órgão de comunicação social publicou pelo menos um artigo sobre os blogues. Depois os blogues passaram de moda, muitos dos blogues criados desapareceram, embora a "audiência" global dos blogues tenha aumentado significativamente, mantendo-se esse efeito até hoje. É altura de fazer um balanço deste novo tipo de publicação electrónica.

A blogosfera portuguesa mudou muito durante este ano, deixou de ser constituída por um pequeno grupo pioneiro, que a usava quase como um "espaço íntimo", para se tornar, de um dia para o outro (a rapidez é uma característica do meio), mais agressiva, politizada no mau sentido, ressentida e implicativa. Mas essa fase também já passou e o melhor dos primeiros tempos "íntimos" e o melhor da fase de democratização da blogosfera permaneceram. Cerca de 20 a 30 blogues portugueses fornecem todos os dias novas ideias, reflexões, informações, que um cidadão avisado e culto não deve perder.

Não tenho nenhumas dúvidas de que os blogues vieram para ficar, enquanto a evolução tecnológica não permitir a migração do que hoje se pode fazer num blogue para outra plataforma mais eficaz e superior. Enquanto tal, uma revolução está em curso, principalmente no âmbito do sistema comunicacional, e, a partir daí, afectando os sistemas que lhe são próximos: a política nacional e local, a crítica literária e artística, a divulgação científica, entre outros.

Nenhuma análise hoje do estado da comunicação social em qualquer país onde existe um sistema mediático - jornais, rádios, televisões - pode ser feita sem incluir os blogues. Veja-se o recente caso americano: dois blogues (Power Line e Little Green Footballs) contestaram a autenticidade dos documentos sobre o serviço militar de George Bush, que o prestigiado Dan Rather tinha divulgado no influente programa 60 Minutos da poderosa CBS. Prestigiado, influente, poderoso. Os documentos faziam imensos estragos na imagem de Bush, mostrando a existência de cunhas e tentativas de alterar os relatórios sobre a sua capacidade como piloto. Foram tratados pelos grandes media americanos como uma notícia de primeiríssima página, capaz de alterar a vantagem que Bush obtivera nas sondagens sobre Kerry, em suma, capazes de definir a contenda eleitoral. Os dois blogues, logo seguidos por muitos outros, analisaram os documentos e começaram a levantar questões: nenhuma máquina de escrever, à data putativa dos memorandos, era capaz de manter aquela ordem de espaços entre as letras, sobrepondo-se as mesmas frases escritas com o processador de texto Word sobre o texto antigo, não havia discrepâncias, etc., etc.

Outros blogues levantaram questões de conteúdo - um militar não colocaria aquelas questões no papel, havia uma discrepância entre a linguagem e a forma de outros memorandos do mesmo militar (que já morreu) e os apresentados pela CBS, etc. Outros blogues refutaram que houvesse falsificações e a CBS disse que tinha feito analisar os documentos por vários grafólogos. Foi só uma questão de tempo até que o assunto chegasse à grande imprensa, ao "Washington Post", que tem outros meios de investigação, e as dúvidas sobre a autenticidade cresceram. Analistas e grafólogos mostraram que não havia a unanimidade que a CBS garantia e toda uma nova série de investigações e depoimentos aprofundaram as dúvidas. A questão está em aberto, mas a controvérsia só existiu porque existem blogues e a Internet lhes dá uma audiência universal.

Em Portugal, o mesmo já se passa hoje. Excluam-se os blogues e a comunicação social seria diferente. Não porque os blogues sejam lidos por muita gente, mas sim porque são lidos pela gente certa. Os blogues são escritos por uma elite para uma elite, são escritos por estudantes, literatos, políticos, cientistas, investigadores, jornalistas, na maioria dos casos jovens e no início de carreira, e são lidos pelos mesmos grupos sociais e profissionais dos que os escrevem. Um grupo tem relevo especial neste ecossistema que é a blogosfera: são os jornalistas.

Os jornalistas, principalmente da imprensa escrita, vão hoje buscar imensa coisa aos blogues, umas vezes citam, outras não, e os leitores dos jornais desconhecem a importância dessa contribuição. Ainda recentemente uma notícia de primeira página do PÚBLICO teve origem num blogue. O jornal demorou uns dias a referir a

Publicado por jgomes às setembro 16, 2004 11:19 PM

Comentários