« O Fogo na Arrábida ( E, já agora, no resto do Pais) | Entrada | Lisboa a Cair... E, já agora, o Porto e os centros urbanos do resto do País... »

agosto 02, 2004

Os fogos... Na Arrábida, e, já agora, em Monchique, Caldeirão e no resto do país.

37IncediosSatelite.jpg
Peninsula Ibérica, imagem de satélite NASA, 28 de Julho de 2004

Esta entrada não tem nada de novo nem ambiciona a originalidade de publicar "novos" pontos de vistas que repetem à exaustão tudo o que já foi dito.

No entantanto, vistas na paisagem também é um blogue e, se mais vantagens não houvessem, bastava esta: a de guardar em formato digital, acessível a todos e por tempo indeterminado, o que simplesmente nos impressionou neste Julho de 2004. Em vez de imprimirmos, recortarmos, guardarmos só para nós, publicamos uma entrada linkando e copiando o que não poderia ser esquecido.

Em primeiro lugar, para fazer o link para o site da NASA de onde a fotografia acima foi retirada. Os fogos na Península Ibérica têm destas honras. E eu, que não percebo nada de meteorologia, ou geofísica, não consigo deixar de notar: que apesar da desproporção entre Portugal e Espanha; que apesar de a Espanha ser pela lógica do bom senso mais quente e mais seca; que apesar de Portugal beneficiar da proximidade do Atlântico; A faixa ocupada pelo nosso pais teve a 28 de Julho um numero de incêndios incomparavelmente maior que o resto da Península! Ao que parece até o aquecimento global do planeta não é para todos.

Em segundo lugar, um link para uma entrada publicada pelo blogue Anomalias sobre o cenário desolador da serra da Arrábida Só não fica triste quem não teve o privilegio de conhecer a Arrábida.

Em terceiro lugar, um link para os artigos publicados no passado Sábado, dia 31 de Julho, no Publico acerca dos incêndios na Serra do Caldeirão. Como o Publico só os tem acessíveis on-line durante alguns dias, copio aqui um excerto, guardando -se os artigos integrais no corpo desta entrada.

Muito do que era importante nas serras algarvias, tanto do ponto de vista ambiental como sócio-económico, perdeu-se. A melhor área de cortiça do Algarve, todos os produtos adicionais que equilibram as economias familiares - como o medronho, o mel, os cogumelos ou a caça - e um ecossistema riquíssimo em termos de flora e fauna está hoje reduzido a cinzas. Para algumas espécies, como o lince, pode ter sido o fim.

Em Cinzas, ao Fim de cinco dias a arder
Sábado, 31 de Julho de 2004

Ao fim de quase uma semana a ver tudo arder, só ontem à noite é que as populações da Serra do Caldeirão tiveram algum descanso. Quase à mesma hora a que o incêndio era dado como extinto, a PJ de Faro detinha, em Almodôvar, um pastor de 22 anos suspeito de, juntamente com a mulher, ter ateado três fogos. A serra algarvia está agora em cinzas. Por Idálio Revez

As serras de Monchique e Caldeirão, os dois "pulmões verdes" do Algarve, estão reduzidas a cinzas. A zona compreendida entre Barranco do Velho e São Brás de Alportel foi agora a mais atingida. O fogo começou na segunda-feira, no limite do concelho de Almodôvar com Loulé, e só ontem foi vencido.

Quase na mesma altura em que o incêndio era dado como extinto no concelho de São Brás de Alportel, a Polícia Judiciária de Faro detinha, em Almodôvar, um presumível incendiário. Trata-se de um pastor de 22 anos, suspeito de, juntamente com a mulher, ter ateado três fogos. Na origem do crime terá estado um conflito com o dono da propriedade onde o casal trabalhava.

Ao fim de quase uma semana a ver tudo arder, só ontem à noite é que as populações da Serra do Caldeirão tiveram algum descanso. A zona do Alportel - em tempos recomendada para a cura de doenças pulmonares - perdeu as principais árvores que forneciam o oxigénio. O Barranco do Velho, de onde soprava uma característica brisa continental, também ficou sem milhares de sobreiros centenários.

Na Serra de Monchique, a situação não é muito diferente. Só no ano passado arderam cerca 32 mil hectares, o que corresponde a uma perda de 82 por cento da mata do concelho. A Associação dos Produtores Florestais candidatou-se entretanto, em conjunto com a autarquia, a um programa de apoio à prevenção florestal, mas ainda não foi contemplada.

O presidente da Câmara de Monchique, Carlos Tuta, disse que o concelho foi considerado de "baixo risco, porque os especialistas entenderam que já pouco mais haveria para arder". Enganaram-se. Na semana passada, foram devorados mais 1885 hectares.

Nas aldeias do Caldeirão, após a devastação, faz-se agora o rescaldo e contam-se histórias que marcaram vidas nos últimos dias. O empregado da bomba de gasolina recorda: "O que valeu é que já estamos à espera do fogo". Por isso, a aldeia equipou-se com material para combatê-lo. "As chamas chegaram a meia-dúzia de metros dos depósitos de combustível". O fogo, ao aproximar-se da estrada, dividiu-se em dois, encurralando a população.

Passada a angústia, Francisco Cavaco mantinha-se ontem atento aos reacendimentos, ao mesmo tempo que deitava baldes de água sobre um sobreiro que, tombado, continuava a fumegar.

No Alportel, a meio da tarde, muitos bombeiros, dando por cumprida a missão, descansavam encostados às viaturas. Porém, meia-dúzia de quilómetros adiante, na Cova da Muda, reacendia-se um fogo. Os populares foram os primeiros a atirar-se ao trabalho.

Mário Rodrigues, um dos voluntários, confessou: "Estava em casa, sentado no sofá, mas senti que era meu dever vir ajudar, depois do inferno que vi ontem à noite". O helicóptero chegou momentos depois, mas a água que lançou quase não chegou ao solo. As linhas eléctricas de alta tensão não permitiram a proximidade do aparelho às labaredas.

Autarcas reunidos

na próxima segunda-feira

O presidente da Junta Metropolitana do Algarve, Macário Correia, calcula que 20 cento da mata da serra do Caldeirão (150 mil hectares no total) tenham desaparecido nestes dias. Não houve queixas da falta de meios humanos e técnicos, mas várias vozes apontam falhas ao nível do conhecimento do terreno. Os bombeiros guiavam-se por cartas militares de há 20 anos, desactualizadas em relação aos caminhos entretanto construídos.

Por outro lado, as comunicações deficientes não permitiam, em certos lugares, que os comandos tivessem contacto a distâncias de dez ou quinze quilómetros.. Estes e outros assuntos, apontados como tendo estado na origem de alguma descoordenação no combate aos fogos, deverão fazer parte da ordem de trabalhos de uma reunião de autarcas algarvios, marcada para a próxima segunda-feira.

Os autarcas vão entretanto exigir apoios do Governo para a construção de aceiros, mas reconhecem que a estrutura da propriedade - o minifúndio - dificulta o emparcelamento e o ordenamento da floresta. Os planos de prevenção, depois de tudo o que ardeu, passam a ser considerados prioritários.

O Valioso Património das Serras Algarvias Esfumou-se
Por ANA FERNANDES
Sábado, 31 de Julho de 2004

Muito do que era importante nas serras algarvias, tanto do ponto de vista ambiental como sócio-económico, perdeu-se. A melhor área de cortiça do Algarve, todos os produtos adicionais que equilibram as economias familiares - como o medronho, o mel, os cogumelos ou a caça - e um ecossistema riquíssimo em termos de flora e fauna está hoje reduzido a cinzas. Para algumas espécies, como o lince, pode ter sido o fim.

Luís Palma percorre as serras algarvias há muitos anos, umas vezes atrás do lince, outras da águia-de-bonelli. A tristeza e o desalento na sua voz são gritantes. Este biólogo da Universidade do Algarve traça um cenário tão negro como a paisagem que hoje ali se vê: "Algumas das zonas mais valiosas foram destruídas." E revolta-se com a destruição dos últimos dois anos: "Foi tudo, de um lado ao outro, de Monchique a Castro Marim." Boa parte destas áreas incluem-se em sítios da Rede Natura 2000, são representativas da biodiversidade europeia. Agora estão tingidas de negro.

O que o fogo tinha poupado o ano passado ardeu este ano. E, depois da passagem das chamas, uma parte importante de todo este "matagal diversificado, evoluído, rico em flora, fauna e recursos desapareceu."

Do ponto de vista das populações, é toda uma economia que se desfaz em fumo e cinza. Os sobreiros que tinham sido descortiçados não resistiram às chamas e mesmo em relação aos outros "há grandes dúvidas, porque muitos dos que pensávamos que iriam sobreviver em Monchique, depois do fogo de 2003, acabaram por não resistir". O zimbral de Castro Marim também desapareceu, o medronheiro, o mel, os cogumelos e todos os recursos que a floresta oferece foram gravemente afectados.

Do ponto de vista ambiental, o resultado foi "catastrófico". "Para o lince, representa o fim", diz Luís Palma. Todos os projectos pensados e em curso para as serras algarvias, apoiados por associações internacionais, poderão estar comprometidos, diz. O problema é que já sobram poucas áreas de refúgio. No ano passado, quando boa parte de Monchique ardeu, os animais poderão ter fugido para o Caldeirão.

Recuperação difícil

Para as águias, por exemplo, a situação também piora gravemente "Há águias-de-bonelli a nidificar em paus queimados, que acabarão por cair", refere. O problema é a falta de zonas de nidificação e também de alimentação, um drama que não ocorreu com tanto acutilância em 2003 porque, apesar da destruição de Monchique, ainda subsistiram áreas onde os bichos se alimentavam. "Vamos ver se encontram alternativa...", adianta Palma.

"Morreu muita fauna e muita flora porque zonas riquíssimas como Barranco do Velho, a bacia de Odelouca e parte da bacia de Odeleite foram destruídas", lamenta. "O que se perdeu em termos de futuro sócio-económico é brutal, projectos como o turismo rural já não têm cabimento."

E agora? O que ardeu foi toda a zona de xisto, a pior sob o ponto de vista da recuperação natural. Manuel João Pinto, botânico no Museu de História Natural, em Lisboa, acredita que a vegetação vai recuperar "se não se fizerem loucuras" como reflorestar com pinheiro ou eucalipto. De qualquer forma, não será uma recuperação fácil: "Haverá grandes perdas de solo que fica desagregado por ter perdido a protecção florestal, ficando assim mais exposto às chuvas."

O problema é mais dramático na zona de xisto do que na de calcário - onde está o barrocal algarvio. Nesta última região, não afectada pelo fogo, os solos são de barro, portanto mais elásticos sob a acção das chuvas. Mas as chamas varreram a área mais vulnerável.

Nas serras de xisto pontificam os sobreiros e Manuel João Pinto acredita que dentro de cinco a sete anos já poderão ressurgir em força os matos. O que não se pode fazer é alterar o coberto vegetal que ali ocorre. "Nem tem sentido, porque o pinheiro, até aos 350 metros de altitude, cresce poucos centímetros".

Este botânico receia sobretudo a acção dos programas de florestação que, nos últimos anos, têm subsidiado a plantação de inúmeros pinheiros nesta região. Até aos 350 metros, a espécie de eleição é a azinheira, acima será o sobreiro. Até porque se trata de uma zona onde chove cada vez menos, onde há uma importante insolação e evaporação.

A solução? "Por que não apostar nas micorrizas", lança Manuel João Pinto. As micorrizas são associações entre fungos e plantas. Têm duplas vantagens. Além de se gerarem bons cogumelos, esta associação permite que as árvores ligadas a estes cogumelos consigam captar mais nutrientes, vingando melhor em zonas semi-áridas. O processo é relativamente simples: as micorrizas multiplicam a superfície de absorção das raízes, captando os nutrientes e enviando-os para as plantas, que crescem mais.

"Portugal tem tradição nestes estudos, mas basta ver o que fizeram os espanhóis na zona fronteiriça, onde existem os mesmos problemas: micorrizaram oliveiras que foram depois instaladas no terreno, onde os cogumelos se expandiram para outras árvores, combatendo a desertificação dos solos."

Publicado por jgomes às agosto 2, 2004 01:10 PM

Comentários

Realmente é triste que ano após ano se vejam imagens destas. Sabemos que não é um problema só português mas isso não nos trás muita consolação. Há relatórios que analisam o seguimento que é feito para restaurar os efeitos dos incêndios?

Publicado por: LPe às agosto 4, 2004 10:03 AM