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agosto 30, 2004

O regresso de férias pela Costa Vicentina

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Portugal, Costa Vicentina - Vila do Bispo, Agosto de 2004

Não há muito de facto que se possa dizer para enquadrar esta fotografia. Esta paisagem, bem como quase todas as outras da litoral do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, não necessita de qualquer texto humano em seu abono. O mínimo dos mínimos que podemos fazer, caso nos passe pela cabeça retribuir á Natureza o imenso privilégio de termos esta faixa do planeta em território Português, é preservá-la sem transigências. De qualquer grau ou ordem.

A praia acima, na costa vicentina, Concelho de Vila do Bispo, tem nome e deve vir referenciada numa série de guias gerais e especializados. Neste blogue recusamo-nos a publicitá-lo, não por qualquer tentativa vã de afastar visitantes, pelo contrário, mas porque esta Costa deve ser apenas vista por quem nela realmente está interessado. por quem estiver disposto à incerteza de qual o trilho a seguir, à chatice de voltar para trás no meio da poeira, ao incómodo de descer a falésia para chegar ao areal.

De qualquer das formas, com um pequeno esforço é possível encontrar algumas placas colocadas pelas autarquias (Vila do Bispo e Aljezur) e pelo Parque. Não são muitas, mas chegam de sobra. Pede-se aliás que não se junte mais nenhuma, nem se pense em alcatroar aqueles caminhos. Está tudo muito bom assim!!!

Nota: O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, um dos poucos que tem sido relativamente deixado em paz, e que tem uma presença de facto pelo território que é suposto proteger, é naturalmente uma entidade muito mal amada pelos interesses do turismo de massas. Não é por isso uma paisagem a salvo da ganância. E quando devíamos estar a discutir o alargamento para o dobro da faixa litoral sob a sua jurisdição, e das verbas a ele afectas, somos confrontados com a necessidade de lutar pelo menos com a manutenção do que existe hoje.

Junto deixo link para a petição online , promovida em Novembro de 2003 pela LPN, e que continua perfeitamente actual ( de lá pra cá já vamos, em modo degradé de competência política, no terceiro ministro do ambiente, e nada foi feito ainda. Nem de bom...nem de mal. Pelo menos estas mudanças ministeriais têm a vantagem de nada ser feito, o que, nestas questões até se agradece!

Junto também os links para um site que descobri dedicado a esta área de Portugal-Terra de Mouros-e que me pareceu muito bom, e para as autarquias de Aljezur e Vila do Bispo.

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Publicado por jgomes às 07:38 PM | Comentários (2)

agosto 13, 2004

Vistas cá dentro....Amarante!

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Portugal, Amarante, Largo da Igreja de S. Gonçalo, 18 Julho de 2004

Vistas na paisagem entrará de ferias hoje e por 15 dias. Para que a última entrada antes do regresso nos deixe de novo em Portugal, o principal motivo e fonte deste blogue, junto aqui algumas fotos tiradas em recente passeio a Amarante. Para quem ainda não conhece, aconselha-se vivamente ser surpreendido pela ponte e igreja de Sº Gonçalo, pelo casario do Centro histórico de Amarante e pelas margens do Tâmega.

Mas, não nos iludamos, mesmo no interior do distrito do Porto, paredes meias com a serra do Marão, normalmente associado ao interior esquecido e martirizado, a qualidade da paisagem não beneficiou do abandono. Quem por lá ficou encarregou-se e encarrega-se hoje de ignorar magistralmente a harmonia do seu legado. Hoje Amarante cresce conforme é possível ver na muito feiosa foto abaixo: a paisagem que se avista do mesmo largo de S. Gonçalo visto na foto anterior....

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É mau de mais para ter sido feito por incompetência. Mais vale desviar os olhos alguns metros e ver a vista na outra margem:

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Mas, apesar da fealdade, Amarante ainda se recomenda! Aqui fica o link da Câmara Municipal de Amarante.


PS - José Manuel Fernandes, redime todas as suas posições sobre o Iraque nos editoriais que escreve sobre o ordenamento do território em Portugal. Ora vejam este, sobre o Algarve, publicado ontem, quinta-feira, 12 de Agosto de 2004. A copia na integra fica no corpo desta entrada.

Boas férias

O Algarve
Quinta-feira, 12 de Agosto de 2004

O Algarve era uma jóia, hoje é quase todo ele um pesadelo a que só se escapa fechado nalguns, raros, paraísos protegidos

Há sensivelmente vinte anos fiz para o "Expresso" uma reportagem com o seguinte título: "O Algarve à beira da catástrofe". No sábado em que saiu fui insultado pelo então governador civil, de seu nome Cabrita Neto.

De que é que falava esse artigo? Do excesso de ocupação do Algarve. Das praias poluídas onde era perigoso tomar banho. Da megalomania dos projectos de construção que esperavam aprovação. Dos riscos da Nacional 125. Da aposta exclusiva no binómio sol e praia, sem que outras alternativas fossem oferecidas. Das arribas que ameaçam ruir e das construções em dunas que poderiam ser submersas pelo mar.

Nestes vinte anos quase tudo piorou. Algumas praias, apesar dos muitos milhões que se gastou em tratamento de esgotos, continuam a estar poluídas, como a da Quarteira. Os projectos que aguardavam luz verde para avançar, avançaram quase todos e outros se lhes sucederam. Os índices de ocupação tornaram-se irrespiráveis em quase todo o litoral. E os preços subiram e continuam a subir. Aqui e além há excepções e até alguns pequenos paraísos, as vias de comunicação melhoraram e já há restaurantes que oferecem qualidade e não apenas preços altos, mas a receita fundamental continua a ser a mesma: sol e praia, apimentada com algum golfe e mais umas marinas.

Por isso não me surpreende aquilo de que hoje se queixa o governador civil de então, entretanto transfigurado em líder do sector hoteleiro: as coisas estão mal, os índices de ocupação são baixos, há indicadores de... catástrofe anunciada.

Infelizmente quem que me atacava há vinte anos dá-me hoje razão - mas sem reconhecer que a catástrofe tem responsáveis, entre os quais ele próprio. A região encheu-se de hotéis, alguns deles de luxo, esperando por turistas endinheirados, mas quase só recebe vagas de ingleses tatuados que partem mal ganham pele cor de lagosta. Nos hotéis, onde os índices de ocupação baixam, estão mais portugueses e menos estrangeiros. Serve-se mal na maior parte dos estabelecimentos de restauração e abusa-se nos preços. A ganância ainda é a regra, o desordenamento territorial a imagem de marca e os serviços insuficientes (designadamente os de saúde, com crónicos problemas nos hospitais da região).

Por outras palavras: o Algarve não percebeu que, com a mudança dos destinos turísticos e com o aparecimento de viajantes mais exigentes, o seu sol abundante e a suas bonitas praias não chegavam. Que há ofertas iguais ou melhores em destinos tropicais por preços idênticos ou até mais acessíveis. E como não percebeu nem resistiu à tentação de ocupar cada milímetro de solo para construir, o Algarve está a perder os turistas estrangeiros e a ficar com os nacionais, sobretudo os que se empenharam numa casinha ou num apartamento. E contam os tostões.

Há vinte anos, nessa reportagem, os especialistas apenas identificavam algumas áreas onde os exageros já tinham levado ao ponto de não-retorno, à impossível requalificação, como Quarteira, Armação de Pêra ou a Praia da Rocha. Hoje estou convencido que concordariam em que toda a região, apesar das suas imensas potencialidades, já as desbaratou, e que se arrisca a viver cada ano pior do que o anterior, com mais queixas, menos turistas e menos qualidade. Por culpa própria e dos seus autarcas e investidores.

José Manuel Fernandes

Publicado por jgomes às 02:11 PM | Comentários (2)

agosto 11, 2004

Vistas lá fora....Peru!

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Peru, Machu Picchu, Julho de 2004
"
Já no Peru, entre montanhas mergulhadas na floresta amazónica e a 2.350 metros de altitude, uma das maravilhas do mundo: a antiga cidade Inca de Machu Picchu (montanha mágica, em quechua, a língua dos Incas). Depois de uma longa viagem de comboio desde Cusco, a antiga capital do império Inca, uma subida de autocarro e uma caminhada até à entrada principal da cidade, o que se avista é realmente compensador.

Construída por camponeses incas, Machu Picchu foi apenas descoberta em 1911 por um americano, Hiram Bingham, que procurava a cidade perdida Inca de Vilcabamba. Após uma limpeza (a cidade estava coberta de densa vegetação tropical) e os trabalhos de recuperação, o visitante presencia hoje uma cidade praticamente como ela existia há mais de quinhentos anos. Para além da arquitectura impressionante, os socalcos utilizados pelos incas na agricultura demonstram a sua capacidade e mestria Inca para florescerem em harmonia com o ambiente. E esta cidade era uma cidade 'simples' se comparada com outras que possuíam uma maior componente religiosa ou administrativa.

Machu Picchu é, como não poderia deixar de o ser, Património da Humanidade. Aqui fica o link para o site da Unesco, bem como uma ligação para uma pesquisa já feita no Google, onde estão referenciados 188.000 links!!.

Licínia Pereira"

Publicado por jgomes às 01:31 PM | Comentários (2)

agosto 09, 2004

Vistas lá fora....Bolivia!

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Bolivia, Lago Titicaca - vista da ilha do Sol sobre a ilha da Lua e os Andes ao fundo. Julho de 2004

Lá fora há vistas assim. Esta foi tirada pela minha amiga Licínia Pereira na viagem que fez à Bolívia e ao Peru no passado mês de Julho. A noção da paisagem não é evidentemente um exclusivo europeu, nem do século XX! Aqui fica o relato para nos aguçar (como se fosse necessário!) o apetite por descobrir outras paragens.

"Da calma vila boliviana de Copacabana e apanhando um barco, cuja lentidão proporciona uma forma relaxada de sentir a imensidão da beleza azul do lago Titicaca, chega-se à Ilha do Sol.

A quase 4 mil metros de altitude, este lago situa-se num planalto, com a cordilheira dos Andes nas suas costas e com o sol incidindo com intensidade. Na chegada à Ilha do Sol, segue-se por uma subida em ziguezague (que com a altitude significa paragens a cada 2 minutos!) até ao topo onde se encontra a vila de Yumani. Aqui, recomenda-se um passeio ao fim da tarde pelos caminhos e veredas da vila, os quais, além de serem também ultilizados pelas lamas, permitem um bom contacto com o modo de vida tradicional dos camponeses bolivianos. Um modo de vida em harmonia com a natureza, modesto e naturalmente muito duro e pobre.

Da ilha do sol avista-se já o Peru e do lado ainda Boliviano, a Ilha da Lua (na foto) e lá mais atrás a Cordilheira dos Andes".

Aqui fica também um link e mais outro sobre o Lago Titicaca.

PS- Para não minimizarmos as proporções deste Lago Titicaca, convém reforçar: fica a 4 mil metros de altitude ( A Serra da Estrela fica a 2000 metros) e tem cerca de 8300 Km2: 233 Km de cumprimento por 97Km de largura!!!!. Praticamente um décimo da dimensão de Portugal.

Publicado por jgomes às 09:33 PM | Comentários (0)

agosto 05, 2004

Um ano a ver Vistas na Paisagem!

Há um ano atrás escrevíamos "blogue, blogue... " pela primeira vez! Não imaginávamos como estaria um ano depois, mas é seguro afirmar que o balanço é francamente positivo: O objectivo principal cumpriu-se e mantém-se totalmente actual: registar num site acessível a todos textos sobre o direito à paisagem (seja ela urbana ou, rural ou natural) que assiste a cada um de nós e que é um elemento fundamental na definição da nossa qualidade de vida enquanto sociedade com um passado e um projecto de futuro.

Como dizíamos na altura, um blogue que se propunha a misturar estética com política, ordenamento e administração do território entre outras coisas!

Para além deste objectivo principal refiro outros aspectos positivos que o Vistas na paisagem proporcionou ao longo das suas 50 entradas. Aspectos normalmente citados por quem edita blogues e que se situam no nível da satisfação pessoal :

- o grande prazer de expressarmos publicamente os nossos pontos de vista e de os partilharmos com outros,

- o habituarmo-nos a ler e a lidar com criticas, nomeadamente quando estas foram negativas e fomos forçados a reconhecer-lhes razão,

- o ter-nos permitido amadurecer e desenvolver ideias, perspectivas e reflexões, levando-nos a percorrer um caminho que para nós mesmos foi de descoberta.

Se a este aspectos juntarmos a expectativa de que outros leitores se identificaram com o que foi sendo editado, então temos a medida da nossa satisfação.

Como é evidente há aspectos menos conseguidos: não conseguimos alterar o layout do blogue uma única vez; falhou-se na intenção de suscitar a participação de outros cidadãos na produção e publicação de textos que partilhassem a mesma base de insatisfação com o que se observa no nosso país em matéria de ordenamento do território.

De qualquer das formas e apesar dos aspectos menos conseguidos o saldo é francamente positivo, e não é arriscar muito afirmar que contamos poder fazer novo balanço positivo daqui a dois anos. O compromisso é continuar a editar com uma frequência semanal pequenos textos, com principio meio e fim, em que a paisagem é a personagem principal.

Como não poderia deixar de ser, finalizo com os inevitáveis agradecimentos:

O meu obrigado ao Paulo Querido, promotor do projecto excepcional que é o Weblog. Os meus votos sinceros do seu (nosso!) maior êxito!
O meu muito obrigado também a todos aqueles que visitaram e visitam o vistas na paisagem!

PS - Porque é sempre altura de fazer um link aqui vai mais um para o Editorial de José Manuel Fernandes no Publico de hoje. Nem de propósito refere e desenvolve as ideias ( que não são inovadoras, eu sei!) da ultima entrada sobre a derrocada de prédios nos nossos centros urbanos! No corpo desta noticia segue o texto na integra.

Derrocadas, Rendas e Cultura
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Quinta-feira, 05 de Agosto de 2004

Os portugueses não gostam de casas velhas. Boas, boas, são as novinhas em folha, a estrear, para onde se entra sem perder tempo com pinturas, sem verificar os canos e as instalações eléctricas e que têm aquele aspecto plastificado que não difere muito de serem "de luxo" ou de "preços moderados". Os portugueses só gostam de casas velhas quando são, virtualmente, de borla. Quando podem lá viver, às vezes sem um mínimo de condições, mas pagando uma renda que nem dava mandar pintar uma janela ou substituir uma torneira - obrigações inalienáveis do senhorio, está bem de ver.

Esta cultura impregna o país de alto a baixo. Serve os construtores civis, que detestam as imprevisíveis obras de recuperação e sabem que o seu negócio tem margens mirabolantes, as maiores de toda a Europa. Serve os senhorios mal intencionados, que vão deixando degradar as casas até que elas venham abaixo por falta de manutenção ou por assassinato deliberado. Serve muitos inquilinos, que graças às rendas baixas, puderam cumprir o sonho bem português da "segunda habitação". E serve até as câmaras que cobram bons impostos pelos edifícios novos enquanto têm de comparticipar na recuperação dos antigos.

Os resultados estão à vista. Primeiro, no desordenamento urbano e na invasão dos espaços rurais mais cobiçados. Depois, na degradação inevitável dos cascos urbanos antigos que, em muitos casos, chegou a um ponto que só investimentos públicos incomportáveis permitiriam recuperá-los.

Os números são, de resto, elucidativos. O investimento em recuperação de edifícios degradados representa apenas 5,6 por cento do total do investimento na construção de habitação, o que faz com que Portugal seja o país da Europa Ocidental que menos investe na recuperação. Só para ter um termo de comparação, diga-se que na Suécia metade do dinheiro vai para a requalificação dos edifícios e em Espanha é esse o destino de 22,6 por cento do investimento.

Não surpreende por isso que 15 por cento dos nossos alojamentos necessitem de obras de conservação ou recuperação (800 mil) e que seis por cento (325 mil) ameacem ruir. Mais: um terço desses edifícios ficam nas zonas de Lisboa e do Porto e 180 mil estão devolutos. Por isso, quando cai um prédio como esta semana sucedeu em Campo de Ourique, a surpresa não é derrocada: é não haver mais derrocadas.

Nessas alturas olha-se para o Estado e estende-se a mão. Mal: devia-se antes exigir as medidas de fundo que faltam. Que são várias. A obsoleta lei das rendas, que ainda não foi liberalizada, é uma delas. Prometida para o primeiro semestre, está adiada para o fim de Setembro. Veremos. Mas não chega. É necessário rever também a tributação do património, algo que está em marcha mas que, suspeito, não penaliza como devia os proprietários de prédios devolutos que jogam na especulação. Por fim, é necessário alterar a forma de financiamento das autarquias e o modo como tributam as novas habitações e a recuperação das antigas, fazendo a necessária distinção.

Hoje quase todos ganham por deixar os prédios cair. Só quando todos perderem se modificará o "novo-riquismo" das casas a estrear e se optará, até culturalmente, pelo mais racional: recuperar, reutilizar, requalificar.

Publicado por jgomes às 07:32 PM | Comentários (6)

agosto 04, 2004

Lisboa a Cair... E, já agora, o Porto e os centros urbanos do resto do País...

Ontem, dia 3 de Agosto de 2004, os jornais da noite transmitiram em diferido as imagem de um prédio de Lisboa a cair .... Imagens impressionantes (ver tambem jornal Público de hoje), e que proporcionaram bons momentos de espectáculo gratuito, explorado ao limite, desempenhado na gritaria convincente de quem acabou de ver a casa a ir abaixo.

O presidente da Câmara, Carmona Rodrigues, que já foi ministro e está habituado a problemas de maior complexidade e gravidade, já nem pestaneja quando assume que há centenas de prédios em situação próxima daquele.

Não pestaneja porque sabe que a culpa não é só dele. O sistema está de tal forma montado que ninguém se sente na obrigação de ter vergonha.

No Porto existem 19 000 habitações devolutas; em Lisboa perto de 90 000 e no total do país estima-se em cerca de 1 milhão e 200 mil!

Enquanto isso, da parte da manhã abusa-se do argumento de que a culpa é da lei do arrendamento! Da parte da tarde, e alegremente no conforto dos gabinetes municipais, aprovam-se mais e mais urbanizações para todos os segmentos e carteiras. O país não aumenta a população, mas há que manter a economia a funcionar... nem que seja a deixar cair cidades para urbanizar ao gosto do mercado!

Isto é um crime puro non sense!! Quando os marcianos aterrarem neste planeta vão fartar-se de rir com estas artimanhas!!

Porque é que ninguém relaciona estes dois temas: As Cidades a cair e as suburbanizaçoes a nascer???

Prédio Degradado Ruiu e Deixou 51 Pessoas Sem Tecto em Campo de Ourique
Por ANABELA MENDES
Quarta-feira, 04 de Agosto de 2004

Um prédio degradado na zona de Campo de Ourique, em Lisboa, ruiu parcialmente ontem de manhã, cerca das 9h15, sem causar vítimas, pois os moradores tinham já sido retirados na véspera pelos serviços da Protecção Civil Municipal, chamados de urgência ao local.

À hora da derrocada ninguém se encontrava em casa, mas o susto foi grande entre os habitantes da Travessa Particular à Rua Possidónio da Silva, especialmente para aqueles que tinham familiares ou amigos no imóvel que ruiu.

Era o caso de Artur Moreira Gomes, que no momento em que o prédio caiu se encontrava a retirar o seu veículo precisamente daquele local. Apesar de morar do outro lado da rua, confessa que o coração lhe caiu aos pés.

"Ali morava a minha avó, a minha filha, a minha cunhada e a minha ex-mulher, que esta noite pernoitaram em minha casa. Mas é uma situação muito dolorosa, pois terão de ser realojadas em pensões a partir de hoje [ontem], visto que onde moro é impossível permanecerem. Na casa que caiu ficaram todos os bens da minha avó, uma vida inteira que será impossível recuperar", explicava, ainda com um ar bastante abalado.

Já José Alexandre, um dos moradores que na véspera saiu para a pensão Barca do Tejo, nas Janelas Verdes, por insistência da Protecção Civil, estava inconsolável. À hora do colapso do imóvel ainda não estava no local e, por isso, olhava desalentado para a fachada esventrada do prédio onde morou 20 anos e onde na segunda-feira à noite deixou todos os seus haveres, incluindo o dinheiro do ordenado e do subsídio de férias que recebera na sexta-feira.

"Saímos com alguma roupa e francamente, talvez por o prédio já ter sido evacuado umas três ou quatro vezes, sempre achei que ainda não era desta que ia acontecer", disse, referindo-se ao eterno estado de degradação do imóvel e ao facto de ter deixado tudo para trás, incluindo o vencimento.

Senhorios ignoraram notificações

Segundo Álvaro de Castro, director municipal da Protecção Civil, Segurança e Tráfego, o prédio que ruiu já se encontrava em mau estado "há algum tempo", pelo que parte dos moradores já tinham sido retirados e os restantes permaneciam "por teimosia", disse.

"Ontem [segunda-feira], elementos da Protecção Civil visitaram o edifício e verificaram que se tinha registado uma alteração significativa na sua estrutura, tendo de imediato pedido às pessoas que saíssem, pois não havia condições para ali permanecerem. Algumas ainda ofereceram alguma resistência, mas acabaram por se deixar convencer e já pernoitaram em pensões", explicou.

De acordo com aquele responsável, os moradores do prédio ao lado também foram obrigados a deixar as suas casas, já ontem de manhã. "Estão a ser encaminhados para as instalações da Protecção Civil, na Praça do Espanha, para posteriormente serem reencaminhados para pensões", afirmou, garantindo que um possível realojamento das 21 famílias, num total de 51 pessoas, em fogos da autarquia, a realizar-se mais tarde, já será da competência do pelouro da Habitação

O presidente da Câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues, que também se deslocou ao local ontem de manhã, disse que pretende reabilitar a zona em Campo de Ourique onde ruiu o prédio, admitindo a reconstrução do edifício para que as pessoas possam regressar. Carmona referiu ainda que a Protecção Civil vai fazer um levantamento das necessidades das famílias, caso a caso, havendo a hipótese de as pessoas serem realojadas provisoriamente em habitações camarárias.

O autarca lembrou que o prédio que ruiu, bem como o prédio vizinho, pertencem a proprietários privados que, apesar de terem sido várias vezes notificados para realizarem obras, nunca as fizeram

Publicado por jgomes às 02:13 PM | Comentários (0)

agosto 02, 2004

Os fogos... Na Arrábida, e, já agora, em Monchique, Caldeirão e no resto do país.

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Peninsula Ibérica, imagem de satélite NASA, 28 de Julho de 2004

Esta entrada não tem nada de novo nem ambiciona a originalidade de publicar "novos" pontos de vistas que repetem à exaustão tudo o que já foi dito.

No entantanto, vistas na paisagem também é um blogue e, se mais vantagens não houvessem, bastava esta: a de guardar em formato digital, acessível a todos e por tempo indeterminado, o que simplesmente nos impressionou neste Julho de 2004. Em vez de imprimirmos, recortarmos, guardarmos só para nós, publicamos uma entrada linkando e copiando o que não poderia ser esquecido.

Em primeiro lugar, para fazer o link para o site da NASA de onde a fotografia acima foi retirada. Os fogos na Península Ibérica têm destas honras. E eu, que não percebo nada de meteorologia, ou geofísica, não consigo deixar de notar: que apesar da desproporção entre Portugal e Espanha; que apesar de a Espanha ser pela lógica do bom senso mais quente e mais seca; que apesar de Portugal beneficiar da proximidade do Atlântico; A faixa ocupada pelo nosso pais teve a 28 de Julho um numero de incêndios incomparavelmente maior que o resto da Península! Ao que parece até o aquecimento global do planeta não é para todos.

Em segundo lugar, um link para uma entrada publicada pelo blogue Anomalias sobre o cenário desolador da serra da Arrábida Só não fica triste quem não teve o privilegio de conhecer a Arrábida.

Em terceiro lugar, um link para os artigos publicados no passado Sábado, dia 31 de Julho, no Publico acerca dos incêndios na Serra do Caldeirão. Como o Publico só os tem acessíveis on-line durante alguns dias, copio aqui um excerto, guardando -se os artigos integrais no corpo desta entrada.

Muito do que era importante nas serras algarvias, tanto do ponto de vista ambiental como sócio-económico, perdeu-se. A melhor área de cortiça do Algarve, todos os produtos adicionais que equilibram as economias familiares - como o medronho, o mel, os cogumelos ou a caça - e um ecossistema riquíssimo em termos de flora e fauna está hoje reduzido a cinzas. Para algumas espécies, como o lince, pode ter sido o fim.

Em Cinzas, ao Fim de cinco dias a arder
Sábado, 31 de Julho de 2004

Ao fim de quase uma semana a ver tudo arder, só ontem à noite é que as populações da Serra do Caldeirão tiveram algum descanso. Quase à mesma hora a que o incêndio era dado como extinto, a PJ de Faro detinha, em Almodôvar, um pastor de 22 anos suspeito de, juntamente com a mulher, ter ateado três fogos. A serra algarvia está agora em cinzas. Por Idálio Revez

As serras de Monchique e Caldeirão, os dois "pulmões verdes" do Algarve, estão reduzidas a cinzas. A zona compreendida entre Barranco do Velho e São Brás de Alportel foi agora a mais atingida. O fogo começou na segunda-feira, no limite do concelho de Almodôvar com Loulé, e só ontem foi vencido.

Quase na mesma altura em que o incêndio era dado como extinto no concelho de São Brás de Alportel, a Polícia Judiciária de Faro detinha, em Almodôvar, um presumível incendiário. Trata-se de um pastor de 22 anos, suspeito de, juntamente com a mulher, ter ateado três fogos. Na origem do crime terá estado um conflito com o dono da propriedade onde o casal trabalhava.

Ao fim de quase uma semana a ver tudo arder, só ontem à noite é que as populações da Serra do Caldeirão tiveram algum descanso. A zona do Alportel - em tempos recomendada para a cura de doenças pulmonares - perdeu as principais árvores que forneciam o oxigénio. O Barranco do Velho, de onde soprava uma característica brisa continental, também ficou sem milhares de sobreiros centenários.

Na Serra de Monchique, a situação não é muito diferente. Só no ano passado arderam cerca 32 mil hectares, o que corresponde a uma perda de 82 por cento da mata do concelho. A Associação dos Produtores Florestais candidatou-se entretanto, em conjunto com a autarquia, a um programa de apoio à prevenção florestal, mas ainda não foi contemplada.

O presidente da Câmara de Monchique, Carlos Tuta, disse que o concelho foi considerado de "baixo risco, porque os especialistas entenderam que já pouco mais haveria para arder". Enganaram-se. Na semana passada, foram devorados mais 1885 hectares.

Nas aldeias do Caldeirão, após a devastação, faz-se agora o rescaldo e contam-se histórias que marcaram vidas nos últimos dias. O empregado da bomba de gasolina recorda: "O que valeu é que já estamos à espera do fogo". Por isso, a aldeia equipou-se com material para combatê-lo. "As chamas chegaram a meia-dúzia de metros dos depósitos de combustível". O fogo, ao aproximar-se da estrada, dividiu-se em dois, encurralando a população.

Passada a angústia, Francisco Cavaco mantinha-se ontem atento aos reacendimentos, ao mesmo tempo que deitava baldes de água sobre um sobreiro que, tombado, continuava a fumegar.

No Alportel, a meio da tarde, muitos bombeiros, dando por cumprida a missão, descansavam encostados às viaturas. Porém, meia-dúzia de quilómetros adiante, na Cova da Muda, reacendia-se um fogo. Os populares foram os primeiros a atirar-se ao trabalho.

Mário Rodrigues, um dos voluntários, confessou: "Estava em casa, sentado no sofá, mas senti que era meu dever vir ajudar, depois do inferno que vi ontem à noite". O helicóptero chegou momentos depois, mas a água que lançou quase não chegou ao solo. As linhas eléctricas de alta tensão não permitiram a proximidade do aparelho às labaredas.

Autarcas reunidos

na próxima segunda-feira

O presidente da Junta Metropolitana do Algarve, Macário Correia, calcula que 20 cento da mata da serra do Caldeirão (150 mil hectares no total) tenham desaparecido nestes dias. Não houve queixas da falta de meios humanos e técnicos, mas várias vozes apontam falhas ao nível do conhecimento do terreno. Os bombeiros guiavam-se por cartas militares de há 20 anos, desactualizadas em relação aos caminhos entretanto construídos.

Por outro lado, as comunicações deficientes não permitiam, em certos lugares, que os comandos tivessem contacto a distâncias de dez ou quinze quilómetros.. Estes e outros assuntos, apontados como tendo estado na origem de alguma descoordenação no combate aos fogos, deverão fazer parte da ordem de trabalhos de uma reunião de autarcas algarvios, marcada para a próxima segunda-feira.

Os autarcas vão entretanto exigir apoios do Governo para a construção de aceiros, mas reconhecem que a estrutura da propriedade - o minifúndio - dificulta o emparcelamento e o ordenamento da floresta. Os planos de prevenção, depois de tudo o que ardeu, passam a ser considerados prioritários.

O Valioso Património das Serras Algarvias Esfumou-se
Por ANA FERNANDES
Sábado, 31 de Julho de 2004

Muito do que era importante nas serras algarvias, tanto do ponto de vista ambiental como sócio-económico, perdeu-se. A melhor área de cortiça do Algarve, todos os produtos adicionais que equilibram as economias familiares - como o medronho, o mel, os cogumelos ou a caça - e um ecossistema riquíssimo em termos de flora e fauna está hoje reduzido a cinzas. Para algumas espécies, como o lince, pode ter sido o fim.

Luís Palma percorre as serras algarvias há muitos anos, umas vezes atrás do lince, outras da águia-de-bonelli. A tristeza e o desalento na sua voz são gritantes. Este biólogo da Universidade do Algarve traça um cenário tão negro como a paisagem que hoje ali se vê: "Algumas das zonas mais valiosas foram destruídas." E revolta-se com a destruição dos últimos dois anos: "Foi tudo, de um lado ao outro, de Monchique a Castro Marim." Boa parte destas áreas incluem-se em sítios da Rede Natura 2000, são representativas da biodiversidade europeia. Agora estão tingidas de negro.

O que o fogo tinha poupado o ano passado ardeu este ano. E, depois da passagem das chamas, uma parte importante de todo este "matagal diversificado, evoluído, rico em flora, fauna e recursos desapareceu."

Do ponto de vista das populações, é toda uma economia que se desfaz em fumo e cinza. Os sobreiros que tinham sido descortiçados não resistiram às chamas e mesmo em relação aos outros "há grandes dúvidas, porque muitos dos que pensávamos que iriam sobreviver em Monchique, depois do fogo de 2003, acabaram por não resistir". O zimbral de Castro Marim também desapareceu, o medronheiro, o mel, os cogumelos e todos os recursos que a floresta oferece foram gravemente afectados.

Do ponto de vista ambiental, o resultado foi "catastrófico". "Para o lince, representa o fim", diz Luís Palma. Todos os projectos pensados e em curso para as serras algarvias, apoiados por associações internacionais, poderão estar comprometidos, diz. O problema é que já sobram poucas áreas de refúgio. No ano passado, quando boa parte de Monchique ardeu, os animais poderão ter fugido para o Caldeirão.

Recuperação difícil

Para as águias, por exemplo, a situação também piora gravemente "Há águias-de-bonelli a nidificar em paus queimados, que acabarão por cair", refere. O problema é a falta de zonas de nidificação e também de alimentação, um drama que não ocorreu com tanto acutilância em 2003 porque, apesar da destruição de Monchique, ainda subsistiram áreas onde os bichos se alimentavam. "Vamos ver se encontram alternativa...", adianta Palma.

"Morreu muita fauna e muita flora porque zonas riquíssimas como Barranco do Velho, a bacia de Odelouca e parte da bacia de Odeleite foram destruídas", lamenta. "O que se perdeu em termos de futuro sócio-económico é brutal, projectos como o turismo rural já não têm cabimento."

E agora? O que ardeu foi toda a zona de xisto, a pior sob o ponto de vista da recuperação natural. Manuel João Pinto, botânico no Museu de História Natural, em Lisboa, acredita que a vegetação vai recuperar "se não se fizerem loucuras" como reflorestar com pinheiro ou eucalipto. De qualquer forma, não será uma recuperação fácil: "Haverá grandes perdas de solo que fica desagregado por ter perdido a protecção florestal, ficando assim mais exposto às chuvas."

O problema é mais dramático na zona de xisto do que na de calcário - onde está o barrocal algarvio. Nesta última região, não afectada pelo fogo, os solos são de barro, portanto mais elásticos sob a acção das chuvas. Mas as chamas varreram a área mais vulnerável.

Nas serras de xisto pontificam os sobreiros e Manuel João Pinto acredita que dentro de cinco a sete anos já poderão ressurgir em força os matos. O que não se pode fazer é alterar o coberto vegetal que ali ocorre. "Nem tem sentido, porque o pinheiro, até aos 350 metros de altitude, cresce poucos centímetros".

Este botânico receia sobretudo a acção dos programas de florestação que, nos últimos anos, têm subsidiado a plantação de inúmeros pinheiros nesta região. Até aos 350 metros, a espécie de eleição é a azinheira, acima será o sobreiro. Até porque se trata de uma zona onde chove cada vez menos, onde há uma importante insolação e evaporação.

A solução? "Por que não apostar nas micorrizas", lança Manuel João Pinto. As micorrizas são associações entre fungos e plantas. Têm duplas vantagens. Além de se gerarem bons cogumelos, esta associação permite que as árvores ligadas a estes cogumelos consigam captar mais nutrientes, vingando melhor em zonas semi-áridas. O processo é relativamente simples: as micorrizas multiplicam a superfície de absorção das raízes, captando os nutrientes e enviando-os para as plantas, que crescem mais.

"Portugal tem tradição nestes estudos, mas basta ver o que fizeram os espanhóis na zona fronteiriça, onde existem os mesmos problemas: micorrizaram oliveiras que foram depois instaladas no terreno, onde os cogumelos se expandiram para outras árvores, combatendo a desertificação dos solos."

Publicado por jgomes às 01:10 PM | Comentários (1)