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abril 25, 2004
Vistas a 25 de Abril de 2004
Os cientistas políticos, especialistas em comunicação e sociedade deverão saber explicar de forma mais detalhada e melhor que eu o porquê e a necessidade de quereremos justificar toda a realidade actual em função de um determinado evento. É este o caso do 25 de Abril de 1974, que tem as costas largas e é hoje, como ontem e provavelmente amanhã, usado, puxado e abusado, à esquerda e à direita, para sustentar, conforme a perspectiva, a lata e o jeito no momento, posições a enaltecer, denegrir ou amenizar as suas consequências 30 anos depois.
Como se entretanto nada mais tivesse acontecido, como se Portugal estivesse fechado ao exterior e imune aos choques e progressos do resto da Humanidade, como se nestes 30 anos não tivesse existido na sociedade portuguesa inteligência e acção reflectida capazes de influenciar positivamente o nosso presente e futuro.
Uma revolução, cujo principal mérito foi o de devolver as liberdades aos cidadãos portugueses, vê-se transformada no inicio do séc. XXI e 30 anos depois, no principio meio e fim de todas as coisas, boas e más que nos aconteceram e ainda acontecem.
Como não poderia deixar de ser, o ambiente e o ordenamento do território são um desses temas que não sei por que carga de água, todos os anos por esta altura são linkados de forma pornográfica ao 25 de Abril. A ideia que se passa é subtil mas não é inocente. Ao apresentar-se o desordenamento do território e os problemas ambientais como males que vieram junto com tantas coisas boas como a educação, liberdade de expressão, o fim da guerra e das colónias, o objectivo não é o de fazer um balanço honesto do que se evoluiu em 30 anos, mas tão só e apenas sugerir, desculpabilizar e lavar a responsabilidade de muitos que ainda hoje nos governam.
Para o vistas na paisagem a situação é clara e não se presta este tipo de subtilezas. O desordenamento do território, a especulação imobiliária, o boom urbanístico, a desestruturação do espaço físico e das comunidades não foi obra do acaso, de nenhuma ingenuidade nem de falta de experiência ou conhecimento da administração local.
Pelo contrario, foi obra da acção concertada de políticos de baixa extracção, de construtores civis oportunistas, de especuladores sem escrúpulos, e governos medíocres interessados em miseráveis taxas de crescimento de 3% sopradas a betão, alcatrão e automobilização. Tudo isto a partir do final dos anos 80 ( já o 25 de Abril tinha 15 anos!) e durante a década de 90. E só foi possível porque os portugueses continuam inacreditavelmente poucos exigentes e muito dóceis a conformarem-se com a falta de qualidade de vida.
Todos os erros cometidos, e todos os erros que ainda se preparam não eram inevitáveis. Pelo contrario eram perfeitamente evitáveis se tivéssemos tido a sorte (que não tivemos) de ter políticos capazes de implementar em Portugal o que fomos estudar e copiar em tantas outras áreas.
Mas o que os nossos políticos preferem, (porque não tencionam ser julgados politicamente pelos crimes cometidos, e porque ainda pretendem cometer mais alguns, alterando por exemplo, conveniente e sorrateiramente, a REN e a RAN), com a ajuda do nosso jornalismo oficial diga-se, é apresentar o desordenamento como um mal menor da nossa "aprendizagem de vida em democracia que tantas outras coisas boas nos trouxe".
E é assim que o 25 de Abril se vê associado a um crime que nem o capitão mais astuto e maquiavélico poderia sonhar como consequência da sua acção.
Conhecem melhor forma de auto-desresponsabilização e declaração de incompetência do que alguém justificar os erros da sua acção presente com factos ocorridos há 30 anos?
Publicado por jgomes às abril 25, 2004 09:22 PM