« E aí está o planeamento à portuguesa!! | Entrada | Em Portugal também se lava mais branco »
março 01, 2004
Ria de Alvor
Aqui está um papel de "caixa de repetiçao" que nao me incomoda nada! Miguel Sousa Tavares havera sempre de ser recordado pela sua cidadania activa na defesa do pouco que temos. E consola-nos saber que tem audiência. Continue a escrever e permita-nos que continuemos a fazer copy&paste sem pagar direitos de autores.
O artigo abaixo é sobre a ria do Alvor. E estimula-nos a pensar de como havemos de nos livrar dos seus supostos protectores!
PS - Reparei agora que ao contrario de que pensava, mais pessoas que as que julgava têm visto este Blogue. Obrigado pela visita e obrigado pelos comentários. Nomeadamente àquele que a proposito das criticas que fiz a Telheiras me lembrarem que lá até existe um hospital psiquiatrico para os invejosos que nao habitam naquele tao acertado bairro! Vou-me já increver!
joao gomes
Assalto à Ria de Alvor
Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2004
No passado dia 2 de Fevereiro, Dia Mundial das Zonas Húmidas, os presidentes das câmaras de Lagos, Júlio Barroso, e de Portimão, Manuel da Luz, reuniram-se para assinar um "plano de protecção para a ria de Alvor", destinado, segundo eles, a "garantir a preservação dos bens e serviços ecológicos, proteger o património paisagístico, natural e cultural, promover actividades compatíveis com a conservação (ecoturismo, aquacultura, marisqueiro) e divulgar às populações o conhecimento e valor da área". Para quem conhece os autarcas algarvios e, sobretudo, a sua obra e a sua peculiar concepção de preservação da paisagem e do ambiente, a notícia é, desde logo, de ficar de pé atrás. E, para quem conhece a ria de Alvor, a desconfiança é dupla: para preservar este ecossistema irrepetível por acção do homem não é preciso assinar protocolo algum - basta vigiar efectivamente para que nada, rigorosamente nada, seja construído ou destruído neste milagre que a natureza pôs ao serviço das populações. E elas sabem bem o que têm ali. Não é necessário que os presidentes das suas câmaras lhes venham ensinar "o conhecimento e valor da área". Na ria de Alvor desovam ou criam-se 70 espécies de peixes e 100 espécies de moluscos, para além de um sem número de aves, répteis e mamíferos característicos de uma zona húmida. Entre muitas outras espécies, é aqui que se cria a incomparável "amêijoa cristã" de Alvor, que o meu amigo Vila serve no seu restaurante ali próximo da Mexilhoeira Grande e que é um dos indícios certos de que, infelizmente, não existe vida para além da morte.
A ria de Alvor é uma das três zonas húmidas do Algarve e uma das doze do país. A importância que estas zonas têm para a preservação de um ecossistema decisivo para a vida selvagem e natural é atestada pelo facto de lhes ser consagrado um dia mundial e de, em qualquer país civilizado, elas serem objecto de uma protecção extrema, que significa um direito comunitário de "non edificandi" total, de que os primeiros defensores são normalmente os próprios autarcas e populações locais. No caso da ria de Alvor, porém, e apesar de até já ter sido objecto de uma intervenção pessoal em sua defesa de um primeiro-ministro inglês, apesar de estar arrolada como um dos sítios da Rede Natura portuguesa, não existe até hoje nenhuma classificação legal que a proteja da "protecção" dos autarcas e dos interesses imobiliários da ordem. A explicação oficial reside na incapacidade de entendimento de dois organismos do Estado competentes para tal, o que, obviamente, é um eufemismo para significar a permeabilidade dos tais organismos aos interesses subterrâneos que se movem à volta da ria.
Temos, pois, que os senhores presidentes de Lagos e Portimão, aproveitando o Dia Mundial das Zonas Húmidas, resolveram proteger a ria de Alvor. E como se propõem eles fazê-lo, para além das grandes declarações de princípio acima citadas? O melhor é passar-lhes a palavra, porque fica tudo cristalinamente claro, como as águas da ria de Alvor.
Diz o presidente de Lagos, Júlio Barroso, que "o desenvolvimento sustentável não pode ser apenas um chavão" - frase introdutória que não augura nada de bom. De facto, logo acrescenta o autarca que "nada disto faz sentido se não houver espaço para o homem", e que a ria precisa de ser "humanizada", embora (note-se a preocupação) não "demasiado humanizada". E isto porque, acrescentou ele numa frase lapidar, seguramente fruto de profunda reflexão, "a natureza também tem de dar algo ao homem".
Fantástico: a natureza deu ao homem a paisagem única da ria de Alvor, um microcosmos de vida natural inimitável, que o serve com os seus peixes, os seus moluscos, a vida lagunar e a actividade piscatória, mas o senhor presidente incomoda-se com tanta vida selvagem, com tamanha selvajaria, e acha que não chega e que é preciso "humanizar" esta natureza egoísta.
E como pretende ele "humanizá-la"? Como é que havia de ser? Com "equipamentos hoteleiros de grande qualidade". Certamente, digo eu, como aqueles que foram e estão a ser construídos à entrada da Meia-Praia, a uns dois quilómetros da ria, e que, excepção feita à urbanização da marina de Lagos, são um verdadeiro monumento ao horror, melhor ao terror, ao terrorismo urbano e arquitectónico, dignos de subúrbio de metrópole africana. Aliás, por estes dias também, o senhor presidente de Lagos apresentou à Comissão Municipal do Ambiente o seu Plano Director da Meia-Praia, cuja única matéria relevante é discutir quanto mais se poderá construir, numa zona onde, para regressar da praia, no Verão, se chega já a demorar uma hora em fila de trânsito, tamanha a construção instalada face às infra-estruturas disponíveis. Mas, quanto a isso, o senhor presidente tratou de esclarecer a comissão de que não há forma de alterar o que a própria câmara já estabeleceu no caderno de encargos fornecido à empresa que está a elaborar o plano director e que prevê nada menos do que o dobro da construção actualmente existente. E quando os membros da comissão contestaram que assim não fazia qualquer sentido o seu parecer, Júlio Barroso rematou com uma das suas máximas condenadas à história: "Mais vale um mau plano que plano nenhum!"
Para a ria de Alvor o presidente da Câmara de Lagos propõe, portanto, "equipamentos" da "grande qualidade" a que nos habituou em Lagos, aliás em obediência a "direitos juridicamente adquiridos e atendíveis". Pergunta a Associação dos Amigos da Ria de Alvor, e eu reproduzo e subscrevo: "O que quer dizer direitos juridicamente atendíveis, numa área de Rede Natura? Atendíveis para quem ou por quem?" E o que quer dizer "direitos adquiridos? Algum dos senhores presidentes prometeu alguma coisa a alguém?" Comungando da mesma sensibilidade ambiental e humanística, também o presidente da Câmara de Portimão se refere às inúmeras pressões incontornáveis, que tornam inevitável "pôr a gestão ambiental ao serviço do ser humano". Dando de barato que o "ser humano" a cujas necessidades temos de acorrer possa ser confundível com o perfil do especulador imobiliário algarvio, coitadinho, resta a terrível pergunta dos Amigos da Ria de Alvor: "Que 'problema complexo' tem o senhor presidente da Câmara de Portimão em que os proprietários da Quinta da Rocha (o coração da ria) queiram fazer ali aprovar um empreendimento turístico? Não seriam eles, talvez, a terem um problema por quererem fazer aprovar um empreendimento turístico em zona de Rede Natura? E que 'pressões' são essas a que lhes é difícil resistir? Serão ameaças de morte? De rapto dos filhos?"
Aqui chegados, os leitores já perceberam claramente o enredo: não há nada como dar voz aos personagens. A pergunta que agora se põe é esta: qual é, afinal, a motivação profunda destes e de vários outros autarcas algarvios e nacionais, que os leva, sem um assomo de pudor, a presidirem à destruição sistemática de tudo o que o país tem de património natural, a favor dos interesses imobiliários?
Afastemos a primeira hipótese de resposta que nos ocorre, porque só outras entidades a poderiam esclarecer, caso estivessem interessadas em o fazer. Vamos à segunda hipótese: a construção assegura postos de trabalho locais. Mentira: basta ir aos estaleiros algarvios para ver que quem lá está são brasileiros, guineenses, marroquinos, ucranianos, romenos - nem um só algarvio para amostra. Segunda hipótese: mais construção significa mais empreendimentos turísticos, mais turistas, mais receitas. Mentira: as estatísticas e os relatórios mostram, de há vários anos para cá, que o excesso de construção no Algarve e a falta de qualidade dos empreendimentos retirou de lá o turismo de qualidade, em benefício das hordas de selvagens europeus, que significam mais ocupação talvez, mas mais degradação e menos receitas. O que resta, então? Resta a extraordinária e lapidar explicação do presidente da Câmara de Portimão: "Não podemos ser fundamentalistas (em matéria ambiental), pois pagamos por isso nas eleições."
Eis a chave do mistério: os senhores agentes imobiliários e construtores financiam as campanhas dos partidos cujos autarcas se mostrem sensíveis aos seus "direitos atendíveis e adquiridos". Sem autorizações não há dinheiro e sem dinheiro não há votos. Esse é um lado da questão, mas há outro, que é potenciado pelas próprias leis do Estado: as autarquias financiam-se pelo OGE e pelas receitas próprias, a sisa (agora rebaptizada e disfarçada) e a contribuição autárquica. Isso significa que, quanto mais forem as autorizações de construção concedidas, maiores receitas terá o município. E quanto mais receitas tiver o município, mais fontes e rotundas, mais piscinas e pavilhões gimno-desportivos se poderão construir e é com eles que também se ganham eleições. Ou seja, os benefícios reais ou ostentatórios de uma população dependem directamente do grau de especulação imobiliária consentido e o triunfo eleitoral vai a par com os atentados urbanísticos aprovados.
Não é preciso ser nenhuma inteligência brilhante para perceber que a primeira coisa a fazer seria assegurar a totalidade do orçamento municipal através do Orçamento do Estado. Em obediência, obviamente, a critérios objectivos, como a população, a área e o grau de desenvolvimento, mas também em obediência a critérios de qualidade da gestão: dar mais a quem melhor promovesse a preservação ambiental, a defesa do património natural e cultural, a eficácia dos serviços públicos assegurados, a inovação económica e a qualidade de vida das populações servidas. Só com esta simples alteração, metade dos especuladores e construtores que vêm impunemente destruindo Portugal, com o apoio dos autarcas, teria de mudar para outro país do Terceiro Mundo.
P.S. - Tão previsíveis e obedientes como o trovão que segue o relâmpago, os santanetes catalogados reagiram, em defesa do amo, das benesses passadas e das expectativas futuras, ao meu artigo da semana passada. Que triste que deve ser uma existência de lambe-botas!
Publicado por jgomes às março 1, 2004 12:46 AM
Comentários
Concordo inteiramente com o acima escrito, de facto o protagonismo que os autarcas ambicionam,através de obras de encher o olho ao zé povinho, é imcompativel com a preservação tanto do património ambiental como o cultural.O caso da ria de alvor é um deles e escuso-me a falar mais dele dada a lucidez com que Miguel Sousa tavares aqui o descreveu, mas outros existem. "fundamentalismos" tem sido a palavra chave do Sr. Drº Manuel da Luz para apelidar as acções daqueles que ousam levantar-se em defesa do património que já foi ou está prestes a ser aniquilado pela autarquia.No rio arade "não podem haver fundamentalismos na protecção do espólio arqueologico sub-aquatico, porque o mercado dos cruzeiros é um mercado emergente com grande potencial económico para a região,logo as dragagens do porto teêm de prosseguir", aquando da construção da alameda os "fundamentalistas" nem tão pouco tiveram tempo de acção ,pois numa operação relampago pela noite dentro as maquinas arruinaram com todo o espolio arqueologico que ali havia( nem deu tempo de ao menos ser removido para o museu),chamaram-lhes cacos.Portimão é hoje uma cidade muito pobre em termos de património, a praia da rocha é vista por toda a europa como exemplo de tudo aquilo que não se deve fazer num destino turistico que se pretende que seja de qualidade, e ainda assim a marcha para o abismo continua. Só espero que daqui a vinte ou trinta anos quando a moda do sol e praia terminar(tudo tem um fim ),os senhores autarcas e os senhores das grandes empresas de construção tenham os seus netos a viver numa cidade com história e património a suporta-la,com recursos naturais de qualidade na qual tenham prazer e se orgulhem de viver.
Publicado por: ivo faria às agosto 5, 2004 12:34 PM