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março 08, 2004
Em Portugal também se lava mais branco
Subtilmente, ou não tanto, os jornais vão dando conta dos efeitos colaterais da urbanização desenfreada que assistimos nesta faixa entre Setúbal e Braga. De vez em quando apontam com limpidez as razões, pouco claras para alguns, que estão na sua origem. No entanto só raramente a relacionam de forma clara e inequívoca com a destruição de paisagens rurais e urbanas que eram património de todos nós.
Como o não fazem, exceptuando alguns números/dossiers especiais dedicados a chorar o que o país de forma leviana vai destruindo; o aniversário do Eng. Ribeiro Teles ( que em matéria de planeamento funciona como uma espécie de Sta. Bárbara dos Trovões) ou a explicar pela milionésima vez o desastre da litoralização do nosso modelo de desenvolvimento,
tomamos a iniciativa de às suas noticias juntar alguns comentários e evidenciar de forma clara o que os outros, políticos sobretudo, se entretêm a ignorar assobiando para o lado.
A noticia em questão - do jornalista Abel coentrão, publicada na secçao local Minho do jornal Publico de Domingo, 7 de Fevereiro de 2004- dá conta de um estudo promovido por um ACE (Agrupamento de empresas) da área imobiliária para melhor perceber as condicionantes do estagnado mercado Imobiliário em quatro cidades do Minho: Braga; Barcelos, Guimarães e Vila Nova de Famalicão. As conclusões apontam para um excesso de 22 mil casas não ocupadas - só nesta cidade - e para a necessidade de as autoridades publicas fiscalizarem mais os mediadores não licenciados que tornam apertado um mercado saturado de oferta.
A orientação final é mais do que legitima - este agrupamento de empresas defende basicamente os seus interesses/mercado - o que me deixa apavorado é que estes estudos não sejam da autoria das autoridades, nomeadamente das autarquias locais ou da associação de municípios.
Os números referidos neste artigo (em anexo) são elucidativos e explicam o que está à vista de todos os que não se recusam a ver: a urbanização desmedida que: 1) destruiu uma parte significativa de uma paisagem património elaborada durante dezenas de gerações, 2) desestruturou comunidades inteiras;3) esvaziou centros urbanos ) obrigou, e obriga, à construção de mais e mais auto-estradas param milhares de famílias que em vez de viverem nos centros ( hoje desabitados) foram empurradas para urbanizações manhosas nos arredores.
Resultado: Só em Braga, a cidade governada por esse "monumento" do poder local Dr. Mesquita Machado, para 164.173 habitantes existem 70.035 fogos, mais de metade construídos depois de 1980. Isto é um fogo para cada 2,3 habitantes; cerca de 10 000 habitações desocupadas.
E como estamos certos de que o panorama é comum ao resto do litoral deste jardim, não causa surpresa ouvir que um pais pobre como o nosso tenha o maior índice de segunda habitações por habitante. Não causa surpresa, mas causa escândalo, porque esta economia subterrânea que encheu o pais de betão e as autarquias de taxas é o modelo de desenvolvimento que está nas cabeças da maior parte dos responsáveis ainda em funções.
Como se não houvesse outra alternativa para nos desenvolvermos que não fosse afectar o dobro da media comunitária do PIB à fileira da construção civil e inversamente quase não desenvolver a industria de reconstrução e reparação de habitações.
É claro que este estádio de coisas é há muito sabido por quem autoriza e licencia. Mas como estamos num pais de labregos, quando a situação for insustentável haverá uns estudos encomendados a Universidades de Planeamento (estrangeiras, que são mais independentes) para nos dizer que a situação é grave..." que se fosse há uns anos....
" Mas bom tudo se remedeia, vai ser necessário criar um Direcção Geral com poderes especiais e transversais para repensar e redesenhar tudo. E que talvez até não seja má ideia criar uma "taxa-paisagem", junto do IRS que é mais fácil cobrar, para corrigirmos os erros mais do que evitáveis. Dir-nos-ao que não será barato, mas o que importa é recuperarmos todos juntos e como pais de mais de 800 anos a paisagem dos nossos antepassados, a nossa memória colectiva, etc, etc e blá. blá.
E nós, como somos uns mansos, vamos até achar que temos uns políticos porreiros que se preocupam com o ordenamento. Os mediadores e intervenientes na fileira imobiliária, esses, que não são idiotas, arranjarão maneira de se reconverter à mesas desses programas tipo Polis em larga escala.
Os autarcas e demais estrategas do crime em curso, sabendo que não são julgados politicamente por nada e tendo certo que as reformas ao fim de 8 anos são sagradas, serão respeitáveis senadores que em artigos de opinião sonsa aplaudirão as iniciativas justificando -se, sem vergonha nenhuma na cara que ...."Pois, pois.. Naqueles anos 90/ principio de século XX! ainda não se sabia muito bem o que aquilo ia dar..pois, pois, era uma loucura de dinâmica empresarial, de modo que era tudo assinado de cruz.pos. Não, não, ...nada a ver com taxas, nem com perigosas ligações...".
E nós, ainda mais mansos, de carro na fila de transito a caminho do nosso T2 nos arrabaldes, vamos pensar... "..Que bonito, o senhor ex-presidente. com aquela idade e ainda preocupado com a comunidade e com o ordenamento. É um senhor. No 10 de Junho devia ser comendador...Coitadinho."
Pois é! ....Em Portugal também se lava mais branco!
João Gomes
Quatro Principais Cidades do Distrito de Braga Têm Mais de 22 Mil Casas Desocupadas
Por POR ABEL COENTRÃO
Domingo, 07 de Março de 2004
A paisagem pejada de prédios e andaimes não engana. Os núcleos urbanos de Braga, Barcelos, Guimarães e Vila Nova de Famalicão cresceram na inversa proporção dos campos que há duas décadas os rodeavam, respondendo ao aumento da população, fosse ele natural ou provocado por um saldo migratório positivo. Mas a resposta do sector da construção ao aumento da procura foi exagerado. De tal forma que, quando a crise chegou, em 2002, havia, nos quatro concelhos, mais de 22.360 casas não ocupadas. É certo que, destas, só uma quinta parte estava nessa altura no mercado para venda, mas os agentes do sector admitem que a situação piorou entretanto, enxameando as vitrinas das agências imobiliárias com imóveis que demoram a encontrar comprador.
"Houve um crescimento acentuado da população e, consequentemente, um aumento da oferta. Mas há oferta excessiva, porque os intervenientes não são regulados de forma nenhuma. Se o negócio está a dar, e não há limites à entrada na actividade, toda a gente entra, o que prejudica as empresas que fazem carreira no sector, que têm que lutar contra esta concorrência", nota João Duarte, da Empresa Duarte & Filhos, que é também executivo de uma associação complementar de empresas (ACE) da construção recentemente formada em Braga, cuja filosofia passa por encontrar formas de diferenciação dos imóveis que cada uma constrói.
Uma volta por meia dúzia de ruas de qualquer uma das cidades em causa permite perceber, empiricamente, o panorama do sector. Esse é o método habitualmente usado por qualquer construtor, mas este ACE constituído por sete das maiores empresas de Braga encomendou um estudo para tentar perceber, com números, as tendências do mercado, não apenas do lado da oferta, mas também no campo da procura. E foi pela percepção de algumas mudanças na relação dos potenciais clientes com os bens imobiliários que decidiram avançar com um processo pioneiro de certificação do produto final (ver texto nestas páginas).
Em relação à oferta, os dados do Instituto Nacional de Estatística são claros. Em todos os concelhos, mais de metade dos alojamentos disponíveis foi construída depois de 1980. Em Braga, por exemplo, para 164.192 residentes, havia, em 2001, 70.268 alojamentos familiares, ou seja, um fogo para cada 2,3 habitantes. Mais de dez mil residências estavam desocupadas, e, mesmo entre as que tinham gente, em 55,8% dos casos foi detectada uma sublotação. Por outro lado, em 16,6 por cento dos casos, as habitações ocupadas estavam sobrelotadas. Na capital do distrito, a presença da Universidade do Minho ainda consegue animar o mercado de arrendamento, no qual estavam colocados mais de três mil imóveis que, no ano censitário, não tinham moradores.
O exagero quantificado da oferta, a percepção de que o fim do crédito bonificado foi uma machadada no mercado de venda de apartamentos usados e a reduzida elasticidade do mercado de arrendamento deixam preocupados os construtores deste ACE, que, embora afirmem acreditar que o escoamento dos seus produtos é uma questão de tempo, perceberam que tinham de mudar alguma coisa para que o que fazem seja notado entre o mar de placas "Vende-se" que se avista numa volta por estas cidades. Mas, para além da selecção de quem compra, pedem também que outras entidades se empenhem em acabar com a concorrência desleal.
Num encontro recente com o presidente do Instituto dos Mercados de Obras Públicas e Particulares e do Imobiliário (IMOPPI), Ponce de Leão, os responsáveis por este ACE pediram uma rápida definição do estatuto e das obrigações da figura de "promotor imobiliário" para acabar com o facilitismo com que qualquer empresa, mesmo sem condições, se põe a construir. "Se toda a gente puder entrar na actividade, vai sempre acontecer o mesmo [um excesso de oferta] em períodos de melhoria económica", argumenta João Duarte, que se mostra satisfeito com as acções inspectivas que o IMOPPI vem desenvolvendo - e que só em Braga resultaram na abertura de vários processos a empresas que operavam sem qualificação para tal.
Retrato da habitação no Baixo Minho em 2001*
Barcelos Braga Guimarães V. N. Famalicão
Habitantes 122.096 164.192 159.576 127.567
Alojamentos clássicos 40.209 70.035 57.690 45.750
Habit/Aloj. 3,0 2,3 2,8 2,8
Aloj. desocupados 2509 10.121 5182 3528
Aloj. para venda 288 2935 870 564
Aloj. para arrendamento 326 3026 1472 804
* Fonte: ACE Divulminho/INE
Publicado por jgomes às março 8, 2004 06:04 PM