
Confesso que não conheço ainda a albufeira do Alqueva, nem tenho nenhuma foto do seu processo de desmataçao e enchimento. Mas confesso também que fico arrepiado com as descrições acerca da inundação de milhares de hectares de Azinheiras e mata mediterrânica que está neste momento em curso.
O Publico de ontem, 5 de Maio de 2004 - volta uma vez mais as atenções (obrigado!) para este projecto "estruturante" que ninguém sabe ainda muito bem para o que vai servir ao certo. De tal forma é assustadora a descrição do que ali se está a passar que deixamos abaixo copia integral da reportagem do jornalista Carlos Dias.
O que se está a passar é o resultado da mistura de insensibilidade e prepotência de um governo que, apesar da insistência das organizações ambientalistas ( Quercus, Geota, entre outras) preferiu levar até às ultimas consequências um projecto de destino errático rumo ao absurdo de por o Alqueva, que no inicio era de irrigaçao, a produzir energia eléctrica. Uns míseráveis 129 MW que no contexto nacional não terão qualquer expressão.
Assim como não terão qualquer expressão os MW que vierem (esperemos que não!) a ser produzidos pela Barragem do Sabor. Aliás ao que sei, os especialistas nem consideram a energia gerada pelos mega-empreendimento projectos hidroeléctricos como renovável, atendendo aos seus demasiados impactos ambientais.
Se não tivéssemos tido governantes intransigentes e adeptos da brutalidade, o Alqueva encheria apenas até à Cota 139 ( 139 metros acima do nível do mar). Mas como temos, o Alqueva vai subir até à Cota 152. Da Cota 139 à Cota 152 são apenas 13 metros, mas o suficiente para alagar 3000 milhares de hectares de floresta mediterrânica, assim como afogar literalmente milhares de azinheiras centenárias que são patrimonio nacional.
Numa frase: Um acto de pura violência gratuita. Um acto que acontece não ontem, não há 200 anos, mas hoje dia 7 de Maio de 2004.
PS - Se houver alguém de Mourão/ Alqueva a ler esta entrada e tiver uma fotografia "publicável" do crime em curso, por favor enviem-me um mail para vistasnapaisagem@hotmail.com.
Águas de Alqueva Submergem Milhares de Hectares de Áreas Florestadas
Por CARLOS DIAS
Quarta-feira, 05 de Maio de 2004
O enchimento da albufeira de Alqueva encontra-se neste momento à cota 148 metros, acima do nível do mar, e o volume de água armazenado já submergiu mais de três mil hectares de áreas florestadas, consideradas zonas a preservar pelo seu valor ecológico.
Mas nada vai conseguir salvar as manchas florestais e matagal onde se acolhiam importantes biótipos. A vegetação que ladeava as margens de 1262 linhas de água da bacia do Guadiana em território português (freixos, salgueiros, aloendros, casuarinas e ciprestes) e os matos mediterrânicos (carrascos, aroeira, murta, giesta, estevas, alecrim, rosmaninho) já desapareceram sob as águas de Alqueva.
No entanto, os ex-ministros Elisa Ferreira e Isaltino de Morais prometeram às organizações ambientalistas a salvaguarda de importantes "habitats", designadamente galerias ripícolas, margens rupícolas e montados.
A ministra do governo socialista garantiu a protecção de quase dois mil hectares no Vale de Alcarrache, por existirem ali espécies animais e vegetais únicas na Península Ibérica. Hoje o cenário que se observa revela que a biodiversidade que se pretendia preservar está irremediavelmente perdida. Milhares de copas de azinheiras sobressaem do extenso espelho de água. Muitas outras se seguirão entretanto para fazer companhia a vários milhares de árvores que já se encontram sob uma coluna de água que nalguns pontos atinge os 35 metros.
A caminho da cota 152
O ex-ministro Isaltino de Morais assegurou ao "Movimento Cota 139" que seriam preservados cerca de 1100 hectares (300 hectares em território espanhol) com valor ecológico, que ladeavam as linhas de água da bacia do Guadiana a montante de Alqueva. Com a cota da albufeira a 148 metros, todo este património ambiental está igualmente perdido.
O actual presidente da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas de Alqueva, (EDIA), Marques Ferreira, diz "não perceber as razões porque se privilegiou o Vale de Alcarrache" pois esta extensa área "vai ficar definitivamente debaixo de água". São quase dois mil hectares de coberto vegetal que estão a ficar submersos.
O mesmo vai acontecer com as zonas escarpadas que se localizem entre a cota 147 e 150. Entre esta última e a cota 152, onde se regista o Nível de Pleno Enchimento (NPE), vão permanecer intactas as zonas arborizadas, dadas as dificuldades de acesso.
A submersão das espécies do montado (sobreiros e azinheiras) por mais de seis meses conduz à morte destas espécies mediterrânicas, como está patente em milhares de árvores dispersas pelo interior da albufeira.
José Paulo Martins, dirigente da Quercus, revelou num recente debate sobre os impactes ambientais em Alqueva, que "centenas de quilómetros de linhas de água foram alterados e 50 por cento dos azinhais reliquiais estão afectados" pelo enchimento da albufeira.
Joanaz de Melo, dirigente do Grupo de Estudos e Ordenamento do Território (GEOTA), salienta que até ao momento "não foi aplicada qualquer medida compensatória que reduza a escala da destruição de 180 quilómetros quadrados de vegetação".
Animais ao abandono
A carga orgânica deixada pelo material lenhoso, associado aos efluentes produzidos pela actividade agrícola e doméstica de 1,7 milhões de pessoas em Espanha e Portugal, pode vir a colocar em causa a qualidade da água de Alqueva.
Continua a ser patente a devassa nas margens da albufeira de Alqueva, onde centenas de cabeças de gado bovino, ovino e suíno pastoreiam e lançam dejectos. Todo o tipo de lixos e entulhos, bem como as práticas piscatórias incorrectas, contaminam as águas e tarda a ser posto em prática um plano de fiscalização e controlo das áreas envolventes da albufeira. "Faltam-nos meios humanos e financeiros e, sobretudo, civismo nas pessoas" alega Nuno Lekoq, vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Alentejo, para a área do Ambiente.
No concelho de Mourão, que viu um quarto do seu território submerso, o PÚBLICO foi encontrar dezenas de porcos, aparentemente abandonados - havia animais com membros fracturados chafurdando na lama e dentro de água. Carcaças da mais diversa maquinaria agrícola já tinham sido atingidas pelo nível das águas, assim como um monte, onde permanece uma suinicultura.
Entretanto, próximo deste local, e numa ilha que vai ficar coberta de água, um extenso olival que tinha sido cortado voltou a rebentar e hoje a área está de novo arborizada.
A Única Central Hidroeléctrica do Sul do País
Por C.D.
Quarta-feira, 05 de Maio de 2004
No conjunto das 27 hídricas nacionais, a central hidroeléctrica de Alqueva é a terceira em potência instalada, a oitava em produtividade média anual e a única do Sul do país. Está equipada com dois circuitos hidráulicos e com dois grupos produtores reversíveis, com a potência de 129,6 MW cada. A energia nasce de uma queda de água com 71 metros. No futuro será possível instalar novos grupos geradores, "sem haver necessidade de esvaziar a albufeira", diz Vicente Reis, administrador da EDIA. A central poderá fazer uma operação de turbinamento para voltar a repor na albufeira a água já utilizada na produção de energia e retida na barragem de Pedrógão, a ser construída 30 quilómetros a jusante de Alqueva. A mais-valia obtida neste sistema hidroeléctrico resulta da energia produzida em horas de ponta, cujo valor é muito superior à utilizada na rebombagem feita de noite ou fim-de-semana, que é mais barata. A partir do próximo ano, a barragem de Pedrógão também vai passar a produzir energia eléctrica (10 MW de potência) e estão quase concluídos os projectos para a instalação de seis mini-hídricas nos canais da rede de rega primária de Alqueva. A energia eléctrica produzida pelo novo sistema hidroeléctrico será lançada na Rede Eléctrica Nacional e futuramente será ligada a Espanha pela linha Alqueva/Balboa.
Publicado por jgomes em maio 6, 2004 01:42 PM | TrackBackEu acho que este artigo tem a sua importância "ambiental" no entanto eu queria-me expressar pelo facto de as pessoas muitas vezes falam mas sem saber ao certo o que é que se passa realmente...
Eu como residente da bacia do "grande lago -Alqueva" estou certo que essa cota bem como o projecto em si é de facto relevante para o progresso da nossa região e do país em geral.
Queria expressar o artigo em tese pois tem o seu grau de relevância, no entanto nós como residentes sabemos mais do que ninguém do que a região precisa, e este projecto é PRECISO?!
Pois que realmente está contra são jornalistas/ambientalistas/anónimos mas que não passam os seu dias nesta zona do país-mas sim em grandes cidades e zonas com poder industrial e com "Jovens" e aqui estamos cada vez mais velhos...então é preciso estarmos unidos perante este mega-empreendimento para mudarmos o nosso rumo como país e estarmos juntos perante esses investimentos necessários para o desenvolvimento.
Porque não se mete em causa a preservação do estúario do sado e do Tejo, bem como toda a costa costeira?!
Agora zonas deprimidas como a do Alqueva?!
Essa zona precisa de investimento, para o seu desenvolvimento...
Já agora convido V.ª Ex.ª a visitar o empreendimento e veja como é realmente preciso naquela região!!?
Obrigado pela atenção dispensada,
J.R. - MOURA (ALENTEJO)
Joel,
Eu é que agradeço a disponibilidade para o comentário! Obrigado, pela atençao e pela opiniao.
Esta entrada não poe directamente em causa a barragem do Alqueva (apesar de mesmo ai ter duvidas que ela traga o tão esperado desenvolvimento). O que ela poem em causa é a estrategia de transformar um projecto que era de irrigaçao num projecto de produçao de energia electrica. Temos a certeza que não exitiam outras alternativas para a produçao de energia? É que é por isso que o Alqueva sobe a cota 151. Por isso e pela ambiçao de ter o maior lago da Europa numa zona que é "estruturalmente" seca . Nestas cosias eu considero que a NAtureza la sabe o que faz.. e nao é por o homem "quere# uma zona humida ali que ela acontece sem consequencias...
MAs bom. Esperemso que os criticos estejam enganados e que esta barragem seja de facto um factor de desenvolvimento para a regiao. Algo a que todos somos sensiveis!
Um abraço
Afixado por: Joao Gomes em julho 12, 2004 01:36 PMNão faço ideia da formação/sensibilidade da pessoa que colocou esta mensagem e do criador deste blog. seja quem for, os meus parabéns!
Eu sou alentejana e fico igualmente arrepiada com este Mega projecto sem qualquer sentido - o Grande Lago!
Compreendo a angústia dos alentejanos, e principalemnte dos que vivem no interior do Alentejo, como é o caso de toda a Margem Esquerda Guadiana. Comprrendo a necessidade de verem uma luz ao fundo do túnel. Mas por favor, abram os olhos! Está mais que provado que as grandes barragens não trazem desenvolvimento sustentável!!! Poderão trazer algum crescimento a curto prazo mas não um DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. E a mais valia a curto prazo resume-se ao turismo. Mas vão ser gastos milhões e milhões de euros para fomentar o turismo no Alentejo? O objectivo da construção de Alqueva foi em 1º lugar a agricultura. Mas isto há 50 anos atrás, porque actualmente não faz qualquer sentido incrementar a agricultura intensiva de regadio, em solos esqueléticos!
Por favor, abram os olhos, o Alqueva foi apenas um capricho político para captar votos, nada mais que isso! Ainda a semana passada li num jornal nacional prestigiado que o único negócio próspero no Alentejo presentemente é a venda de barcos! É isto que os alentejanos querem? Vender barcos? É assim que pensam fixar jovens? Eu sou alentejana e não quero vender barcos!!!
O Património natural e cultural, aliados à nossa hospitalidade têem, quanto a mim, um enorme potencial turistico. É isto que as pessoas procuram. Lagos artificiais há muitos e estão quase todos às moscas por esse mundo fora!
Alentejo há só um!
Afixado por: Carla Janeiro em agosto 11, 2004 01:57 AM